Opinião

Continuidade e ruptura

Continuidade e ruptura

Não têm faltado "balanços" ao ano que termina daqui a cinco dias. Existe, aliás, uma espécie de "redacção única" que os elabora. São todos previsíveis nos "factos" e nas "pessoas". Parece-me mais útil, porém, dado o estatuto de imprevisibilidade, de incerteza e de violência que rege o Mundo, tentar apreender possíveis linhas de continuidade e de ruptura. Nós não contamos muito para esse efeito, mas, como periféricos, mais cedo ou mais tarde tudo acaba por nos atingir. Do pouco que sobra para a selecção democrática doméstica, há os governos, o Parlamento e o presidente. Quanto a este, temos o assunto resolvido presumivelmente por dez anos. Chega e sobra para amplas variações, consoante as circunstâncias e os protagonistas. Marcelo é diferente de todos os que o antecederam porque é mais imprevisível e lúdico. Depois de mais de quatro décadas no activo político-comunicacional, não se lhe pode exigir grandes mudanças. Veja-se, por exemplo, este trecho revelador em "Mota Pinto, Biografia", de João Pedro George (Contraponto, 2016, que recomendo): "Quem estava a fazer a ponte com Sá Carneiro era Marcelo Rebelo de Sousa, todavia, no momento de clivagem do congresso (de Aveiro, em 1975), acabaria por não corresponder às expectativas, na hora decisiva acabou por não fazer o que tinha sido combinado previamente." Encontro, pelo contrário, uma linha de continuidade em António Costa que é verdadeiramente o único líder partidário eficaz e capaz. Não é um elogio, é uma constatação. Passos também tem a sua, mas até agora ineficaz e incapaz. Não é uma crítica, é igualmente uma constatação. Costa introduziu uma linha de ruptura no sistema e no regime que lhe permite o conforto da continuidade: a da garantia da governabilidade à Esquerda sem maioria própria do PS. O que cria, para a Direita, a obrigação de maiorias absolutas se pretender o poder. É um trabalho político que exige autoridade na liderança, capacidade federadora, inter e extra-partidária, e adesão social. Só dois líderes conseguiram isso, contra ou apesar dos presidentes de então: Sá Carneiro e Cavaco Silva. Marcelo decerto não abdicará de ter uma palavra nisto, directamente ou por interpostas pessoas. Curiosamente, o primeiro a falar em "aliança democrática", no sentido que relevo aqui, foi Mota Pinto, em 1978, numa entrevista ao "Jornal do Brasil". Precisamos de outro como ele, homem bom, "realista e reformador". Pode ser que apareça.

JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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