Opinião

Costa, o homem que não casou com um banco

Costa, o homem que não casou com um banco

Ninguém pode dizer que não foi avisado. De repente, parece que o país inteiro acordou para o nepotismo socialista, mais propriamente, do Governo.

Agora na vertente dos circuitos familiares nos ministérios e nos gabinetes. Todavia, nem cem dias eram passados sobre a posse de António Costa e, por exemplo, já os muito cobiçados centros regionais, de "coordenação", dos institutos e disto e daquilo estavam tomados pela tradicional rapacidade política socialista.

Os aliados parlamentares dos socialistas fingem um vaguíssimo incómodo porque a circunstância é eleitoral. Isto após quase quatro anos de cumplicidade silenciosa. E até ensaiam entre eles uns jogos florais sobre quem tem ou deixa de ter mais parentela em funções de nomeação política. Carlos César, o mandarim açoriano e campeão regional em nepotismo, meteu-se com as moças do Bloco, e elas com ele, numa exibição de um folclorismo hipócrita que só engana crédulos.

O tema das "famílias Adams" socialistas é sério. Porque o país foi exposto ao ridículo e à chacota internacional por causa da composição do Governo da República. A via latino-americana, seguida por Costa e pela sua corte de fiéis amigos, tem sido exibida cá dentro e lá fora, o que, sendo irrelevante para a amoralidade política que os caracteriza, prejudica a imagem de Portugal. Que fez entretanto o presidente da República perante este descalabro ético às escâncaras?

Numa primeira fase, chutou cinicamente para o antecessor a nomeação dos membros do Governo depois de um mandato inteiro com Costa ao colo. Depois, achou que devia pôr em letra de forma o que lhe ia na alma. Em nove pontos, sacudiu toda a água possível do capote, terminando concludentemente que não foi nomeado por ninguém. "Fui eleito pelo povo português", escreveu. Pois foi. Contudo, nota-se pouco. Até na reacção a este assunto desagradável, o presidente manteve o temor reverencial por Costa - e por um hipotético eleitorado socialista que lhe faltou na primeira eleição - que alimenta há três anos. A redacção dos nove pontos é, pois, a mais clara prova disso mesmo.

Costa, esse, tratou e trata o assunto da endogamia governativa com a proverbial brutalidade com que trata tudo e todos. Percebeu, afinal, que isto é mais complicado do que parece em cima de eleições. E que tudo tragou: passes, défices "virtuosos" e europeias. Só um político que se sente acossado é que atira para o ar que "não há ninguém no Governo casado com um banco". Importa-se de repetir?

* Jurista e membro do partido Aliança

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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