Opinião

De Costa a Costa

Os "programas eleitorais" são cardápios de boas, más ou melhores intenções, em geral piedosas, que só os jornalistas da política e da economia lêem por dever de ofício. Ocupam, por isso mesmo, algumas páginas maçadoras dos jornais. Se, à apresentação do "programa" juntar-se um espectáculo multimédia para as televisões, o "programa" tem direito a directos e a inflamações histriónicas adequadas a um qualquer talk show, aproveitando-se os melhores momentos proporcionados pelo chefe, e por quem o chefe define como co-protagonista do evento, terminando em geral com o "one man show" do líder. A moda consiste em o líder aparecer sozinho no palco, como uma vulgar estrela pop ou eclesiástica evangélica, com o microfone oculto no cabelo ou, em casos desesperados de incompatibilidade com o "progresso", de microfone na mão à Marco Paulo ou à Rui Rio. O texto, se ele for marrão, está na mona e nuns papelinhos discretos nas mãos que desenham no ar o maravilhoso futuro que o "programa" traz. Se não for, há um teletexto para o qual ele olha disfarçadamente por entre as palmas dos figurantes e militantes. Para resumir, os "programas eleitorais" são coisas que normalmente se abandonam no dia a seguir às eleições por causa de outra coisa designada por "realidade", seja ela a propriamente dita, outros partidos, um PR que leva a sério o que faz e, a mais relevante de todas, o poder e a sua manutenção. O PS, quando está no poder, é inexcedível e inimitável neste género de circo político-mediático. Foi assim com Guterres da "razão e coração", com Sócrates da "força e confiança" e com Costa do "fazer ainda mais e melhor". É, pois, de esperar o pior. Sob a capa de "uma abordagem judicial integrada", Costa, no seu espectáculo do Pavilhão Carlos Lopes, defendeu a criação de tribunais especiais para julgar o crime de violência doméstica. Mas, como sabe que são inconstitucionais, concluiu como um vulgar "democrata iliberal" agora tão em voga desde a América Latina ao Leste europeu: se é inconstitucional, muda-se a Constituição para passar a ser. Costa só não foi ministro das Finanças como o seu homónimo Afonso da "República Velha". De resto, é um fenomenal epígono do caudilho que defendia haver "maus" e "bons" portugueses, e que o país "não pertencia igualmente a ambos". Sabemos como Afonso tratou, com método, quem não pertencesse. Também à República dele ocorreram tribunais especiais, os "tribunais de honra" invariavelmente condenatórios, e uma legislação penal ideológica e persecutória. Não convinha repetir.

*Jurista e membro do partido Aliança

o autor escreve segundo a antiga ortografia