Opinião

Desintoxicar a Direita e a indiferença

Desintoxicar a Direita e a indiferença

As eleições europeias foram as primeiras de um ciclo de seis meses que só termina nas legislativas de Outubro, com um sufrágio regional pelo meio na Madeira.

A Direita escolheu enfrentar estes actos eleitorais sem coligações. Não porque ninguém as tivesse sugerido - por exemplo, Pedro Santana Lopes, na Aliança, ou Miguel Morgado, no PSD, defenderam essas coligações mesmo que em moldes distintos -, mas porque os dois partidos com representação parlamentar nesta legislatura as recusaram terminantemente.

A líder do CDS, confundida com uma votação muito específica que obteve nas autárquicas de Lisboa, foi a primeira a "libertar-se". Rui Rio, que tem uma "visão" paroquial do seu próprio partido e do país, estreitou ainda mais as virtualidades desse entendimento. Primeiro, e ainda mal tinha aquecido o lugar, já estava a propor "pactos" a Costa e ao PS que apenas serviram para mais uma fotografia de ocasião favorável ao primeiro-ministro. A seguir, selou o seu autismo político com uma gestão politicamente desastrosa das fragilidades de Costa por conta da primeira fase das europeias, por um lado, e da duplicidade governativa em exaustão, por outro.

Com a questão dos professores, deu a Costa um fôlego suplementar que lhe serviu, com a cajadada da ameaça de demissão, para matar aqueles dois constrangimentos e usar as eleições de ontem para passar simultaneamente à fase seguinte do campeonato. Rio ainda piorou as coisas com uma matemática absurda onde somou cifras de resultados inventados por ele, juntando o PSD e o CDS de 2014 em coligação europeia, para concluir que, em qualquer circunstância, subiria e, por consequência, se manteria. Rio personifica um dos maiores desastres que desabaram sobre a Direita precisamente na altura em que o país necessita de uma ruptura saudável e bipolarizadora.

Os líderes da actual Direita parlamentar, por mais estimáveis que sejam, não possuem a dimensão nacional, ou a autoridade indisputável, para enfrentar António Costa que já acenou com 2024 como limite para aturarmos a sua magnífica pessoa. A reorganização política e cultural da Direita, sem hesitações nem toleimas de "personalidade", tornar-se-á irrecusável depois de Outubro. A Esquerda, ao contrário da Direita de serviço, sabe muito bem o que quer e para onde vai. Parafraseando um provérbio chinês, é tempo de, à Direita e contra a indiferença, perceber-se a causa dos embaraços e de deixar-se de confundir incertezas com ignorâncias. Tudo o que for menos que isto é ridículo.

*Jurista e membro do partido Aliança

o autor escreve segundo a antiga ortografia