Opinião

Duas entrevistas, dois monólogos

Duas entrevistas, dois monólogos

O país estava entretido com a inenarrável Eurovisão e, parte dele, muito justamente com o Futebol Clube do Porto. Por isso, Marcelo e Costa só surpreenderam o "meio" político ao decidirem comunicar por meio de entrevistas. É mais uma originalidade desta legislatura atípica, marcada pela impotência da Direita em formar Governo depois de ganhar eleições, pelo regresso do radicalismo à área da decisão política e pelo triunfo do oportunismo tacticista do PS de Costa em toda a linha. Marcelo "herdou-o", e ao Governo dele, com exagerada alegria. Mas começa a dar sinais de que não lhe agrada excessivamente a ideia de, um dia, ter de empossá-lo. Nunca fará como Sampaio que não se privou, para história, de confessar ter-se "fartado" de Santana Lopes como primeiro-ministro. Goza, no entanto, da perfeita noção de não estar a lidar com gente de bem. Na parte em que o seu "espaço vital" choca com Costa, Marcelo vem cá para fora desabafar. Fá-lo tão diariamente, ou quase, que corre o risco da dupla indiferença: a do país e a de Costa, confortado na sua maioria albanesa interna de 96%. Neste "diálogo" mediante entrevistas, Marcelo exigiu a Costa duas coisas. A primeira, que a maioria de Esquerda parlamentar viabilize o Orçamento para 2019, o último da legislatura, uma vez que não lembra ao careca que o PSD o possa fazer, por muito pusilânime que Rio seja. A segunda, que o Governo providencie para prevenir tragédias como as do ano passado, as quais, a verificarem-se, levariam Marcelo a reponderar a sua situação em Belém. É claro que, antes disso, devolveria o Parlamento a eleições por entender (digo eu) que o Estado (de que ele é chefe) estava, no mínimo, eticamente falido. A isto Costa respondeu com a delicadeza e a língua de prata habituais nele. Por um lado, "avisou" o presidente que não recebe recados pelos jornais. A seguir, sugeriu que se demitiria caso os seus "companheiros de estrada" não viabilizassem o Orçamento, uma conversa de chacha própria do figurão. E acrescentou, quanto aos incêndios, que não necessita de "estímulos suplementares" de Marcelo para o Governo e a sua (e do sr. Marta Soares) "autoridade" de protecção civil darem conta de tudo. É neste ambiente de farsa institucional e de jogos florais que vamos andar até ao fim. Parece apropriado, até por causa da EDP e das "três gargantas", evocar um provérbio chinês. "Os príncipes tornam-se ridículos quando fingem desconhecer a causa dos seus embaraços ou quando confundem as suas incertezas com as suas ignorâncias".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA