Portugal único

Ficámos a saber, graças a uma investigação de dois jornalistas do "Expresso", da existência de uma "comissão independente para a descentralização".

É paga pelo Parlamento e presidida por João Cravinho, antigo ministro das Obras Públicas e Transportes de Guterres, notável inventor de diversas falácias, tais como estradas "sem custo para o utilizador" e comboios rápidos em carris inamovíveis desde praticamente a invenção da ferrovia, mais tarde simultânea e misteriosamente convertido em campeão virtual da luta contra a corrupção e em "vítima" (o PS, o Governo a que ele pertencia e ele mesmo) de "lóbis e de interesses" que até hoje não conseguiu nomear. É mais um "vulto" produzido pela trivialidade política nacional que, em 2019, e de acordo com aquela investigação, pretende ilustrar a pátria nos caminhos da regionalização. Na verdade, a descentralização é o pretexto que o PS e o Governo de Costa arranjaram, com a cumplicidade de meia dúzia de idiotas úteis do PSD, para tentar impor, com o aval da comissão Cravinho e dos milionários pareceres que pediu - tudo junto, comissão e pareceres custariam meio milhão de euros públicos -, a regionalização. Até autarcas insuspeitos como Rui Moreira, do Porto, não só entenderam a marosca quanto lhes repugna a própria farsa descentralizadora em curso. Os portugueses rejeitaram a regionalização num referendo, em Novembro de 1998, proposto pelo então líder do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, que com certeza não mudou de aviso. Estive nesse "Movimento Portugal Único", contra a regionalização e que juntou gente das esquerdas e das direitas. Os motivos mantêm-se. Nem a história, nem a geografia, nem a densidade populacional, nem a língua ou a religião justificam esse "erro colossal", na terminologia de Mário Soares em 1998. Alguém, salvo os caciques partidários por causa do efeito multiplicador de lugares, quer juntas e assembleias regionais de onde dificilmente desaparecia a macrocefalia lisboeta, a região mais "densa" de todas? Como escreveu Victor Cunha Rego no dia a seguir ao referendo de 1998, "não há regionalizações boas ou más". "A regionalização é uma forma concreta de organizar ou desorganizar, politicamente, um país. No caso português, tenderia a formar partidos regionais e a dividir o que sempre esteve unido e o que constitui uma forte e rara vantagem na Europa". A região do Grande Porto e o Minho foram, aliás, exemplares nessa votação mostrando saber quem são desde sempre. Mas, se for preciso, mostra-se outra vez.

* Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia