Opinião

Sá Carneiro e o futuro do PSD

Sá Carneiro e o futuro do PSD

Francisco Sá Carneiro morreu há trinta e sete anos. Com felicidade, o historiador José Freire Antunes chamou-lhe "um meteoro nos anos setenta". Na verdade, apenas viveu os seis primeiros anos deste regime, mas com uma intensidade única e trágica. Fundou um partido, o PPD/PSD, do qual foi o primeiro presidente. Fez parte, enquanto ministro sem pasta - na realidade, era praticamente vice-primeiro-ministro -, do primeiro governo provisório de Palma Carlos. Cedo intuiu o desvio hiper-revolucionário que culminaria no 25 de Novembro de 1975, um ano pessoalmente duro por causa da saúde frágil. Veio votar nas eleições para a Assembleia Constituinte e regressou aos tratamentos lá fora. Nas primeiras legislativas, em 1976, ficou decepcionado com o resultado do PSD. Foi o primeiro a declarar apoio a Eanes para Belém, antecipando-se ao PS, graças à astúcia do actual presidente da República. Desembraiou de um regime a tentar viver o "sonho mexicano" do PS, com a complacência de alguns companheiros, e abandona a presidência do partido em 1977. Volta em glória no chamado congresso do cinema Roma, no ano seguinte, apostando ainda em Eanes. Entre 1978 e 1979, prepara uma federação política (e um projecto de revisão constitucional) que rompa com o tropismo militar e com a tentação do domínio do aparelho do Estado pelo PS. Tenta atrair Soares para esse compromisso reformador sem Eanes, falha e volta-se para a sua direita. Tem a habilidade de não restringir o centro-direita ao seu próprio partido, ao CDS e ao PPM, com uma Aliança Democrática que incluiu personalidades de centro-esquerda. A 2 de Dezembro de 1979, em eleições intercalares, a AD obtém uma maioria absoluta e Sá Carneiro será primeiro-ministro até à morte violenta em 4 de Dezembro de 1980. Devemos-lhe a integração tranquila e democrática da direita no regime, somente cinco anos após a revolução. O paralisante Mota Amaral disse uma vez que Sá Carneiro tinha a "vertigem do risco". Infelizmente, muitos dos que se reclamam da "herança" que não deixou, porque era atípico disto, nunca a tiveram e jogaram sempre pelo seguro. Sá Carneiro tinha os olhos exigentes do futuro e, sem pretensões de infalibilidade matemática, arriscava quase sempre no limite. Por exemplo, ninguém o veria na "comissão de instalados" contra Santana Lopes que ornamenta, pela negativa, a candidatura Rio no PSD. Ali, não há vestígio de ruptura democrática ou de inconformismo reformista, afinal o programa não escrito do PPD/PSD e de Sá Carneiro.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

* JURISTA