Opinião

Só existe aquilo que o público sabe que existe

Só existe aquilo que o público sabe que existe

À medida que se deteriora a qualidade genérica dos telejornais, independentemente do operador em causa, aumenta a dos programas de investigação jornalística que umas vezes os integram, outras passam a seguir.

É um facto comum ao serviço público de audiovisual e aos outros dois canais generalistas, bem como à informação exclusivamente veiculada através do cabo. Muitos desses programas têm dado origem a que outras entidades, políticas ou judiciárias, intervenham e se ponha cobro ou mitigue as situações denunciadas. Para além disso, há programas como, por exemplo, a "Grande reportagem" da SIC ou a "Linha da frente" da RTP, que conseguem aliar interesse informativo à extrema qualidade de realização televisiva. Outros, como o de Sandra Felgueiras ou de Ana Leal na TVI preferem a contundência contingente e o contraditório forte, mesmo que - como no caso do programa de Leal em que interveio o presidente da Cruz Vermelha nuns preparos que exigiriam, no mínimo, um pedido de desculpas, quando não o lugar posto à disposição - se esboroem as consequências exigíveis. Chamo a isto conteúdos de serviço público informativo, independentemente do operador que os veicula. Quanto ao mais, os alinhamentos dos jornais televisivos, autênticos pastelões (até no sentido literal), salvo o da RTP, com hora marcada para terminar, são concebidos essencialmente para duas coisas. A primeira, para má política, quer sob a forma da pura propaganda do regime (a desproporção de aparições da líder do Bloco, dos Verdes, de Jerónimo ou de Cristas em relação aos resultados eleitorais, a repetição alternada de Costa PM e de Costa secretário-geral num mesmo telejornal, seguido de um cortejo de ministros a "fazer coisas", a rasura praticamente total de novos partidos, salvo se tiverem um líder "mediático", etc.), a segunda para trivialidades infinitas que mais não são do que peças condensadas dos programas kitsch das manhãs e das tardes. Se juntarmos a isto os quase cem (100) comentadores da política (activa e passiva, uma vez mais sem "lugar aos novos" da política), temos um panorama civicamente e culturalmente devastador. Vi, há dias, na televisão francesa os doze cabeças de lista às europeias em debate. Aqui só passam os mesmos três ou quatro de há pelo menos duas eleições. Salazar não se enganava quando afirmava só existir aquilo que o público sabia que existia. Deixou escola.

Jurista