Opinião

Um homem singular

Talvez a eleição intercalar legislativa de Dezembro de 1979 tivesse sido a primeira e a última em que o eleitorado escolheu simultaneamente o chefe do Governo e os deputados.

Refiro-me aos da Aliança Democrática, evidentemente. Daí em diante, a opção passou a ser entre pessoas, isto é, entre o que se convencionou chamar candidatos a primeiro-ministro. Ninguém mais, a não ser as "estruturas" partidárias, quis saber de nomes de deputados para nada. A ascensão ao fraco Olimpo parlamentar é um caprichismo dos líderes, vagamente temperado pelas "indicações" locais desde que não prejudiquem a "quota" física e mental do chefe. Foi assim que se instalou o famoso pára-quedismo político, com gente que não tinha nada a ver com os distritos a encabeçar listas. É por isso que os últimos vencedores interpartidários normalmente "herdam" grupos parlamentares que não são deles. O estúpido "método de Hondt" e a ausência de círculos uninominais também ajudam. Em suma, temos escolhido primeiros-ministros, e governos, em alternativa. Houve sempre pelo menos dois candidatos fortes. E o eleitor optava por deixar ficar o incumbente ou em dar uma oportunidade a outro. A novidade das eleições de Outubro é que apenas António Costa concorre à sua própria sucessão. É claro que Constâncio, Sampaio, Barroso em 1999, Ferreira Leite em 2009, Sócrates em 2011 e Costa em 2015 sabiam que não iam lá. Mas havia bipolarização. Ora, desta vez Costa não tem ninguém a disputar-lhe o cargo. O que lhe permite fazer o que quiser, desde hostilizar ostensivamente os seus aliados radicais de legislatura até aproveitar o embrulho político que Rio possui no lugar da cabeça para o usar. O secretário-geral do PS é o político puro. Até aos catorze anos, andou a ser apresentado ao regime pela progenitura ilustre. A seguir, como ele aprecia lembrar, nunca mais largou a política e o PS. Exigiu lugares aos seus chefes circunstanciais, no partido e no Governo, e preparou, de Lisboa, o que temos vai para quatro anos. Não precisa de ideias, ou sequer de as saber formular, para nada. Avança por entre os pingos da babugem alheia. Enquanto aos outros interessa as listas de deputados - onde se aguardam enormes desastres, aliás -, a ele apenas interessa consolidar o poder que soube, e que lhe deixaram, adquirir. Costa não tem estados de alma. E deixa por conta de aprendizes de feiticeiro, como Centeno ou a sra. Temido, a exibição autoritariamente ridícula do poder. É um homem singular.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*JURISTA E MEMBRO DO PARTIDO ALIANÇA