Opinião

Isto não vai ser bonito de se ver

Isto não vai ser bonito de se ver

Mal Cavaco Silva abandonou Belém, deu-se então início ao PDEC, "o processo de descrispação em curso" - a versão século XXI do PREC de 1974-1976 -, desta vez sob a égide do PS e do radicalismo parlamentar.

Uma vitória europeia na bola, a "viragem" de centenas de "páginas de austeridade" e de outras "páginas amarelas", reais ou inventadas, a permanente sensação de festa e de festança, o cargo europeu de um ministro, a planetarização inútil de Guterres, etc., foram contributos preciosos para a beatitude de fachada que se instalou.

O último obstáculo, Passos Coelho, saiu de cena no Outono de 2018 com a dignidade indemne. Costa não mais parou de "somar sucessos sobre sucessos". As sondagens davam-lhe a vitória que não obteve contra Passos, com maioria absoluta. Primeiro, só conseguiu mais um eurodeputado que Seguro.

A seguir, os resultados apenas lhe permitiram formar um Governo minoritário. Deixou sair o único tido por "ministro-trunfo" para a sinecura do Banco de Portugal, caindo a presidência portuguesa do Eurogrupo. O desempenho inicial quando a pandemia atacou atirou o regime - o PR e o Governo do PS - para níveis estratosféricos nos estudos de opinião.

No início de Março, aliás, o regime continuava a cultivar o ambiente da felicidade e das bem-aventuranças colectivas. Uma coisa periférica, a défice zero, segura, baratucha, com mar à brava e ruas inteiras para encher de gente e sardinhas. O país percebeu mais cedo que o regime o que era preciso fazer. E fez, e muito bem. Entretanto, chegou a semana fatal do 25 de Abril -1.o de Maio.

E Maio e Junho com "desconfinamentos" sucessivos e mal avaliados. O regime começou a tremelicar. O "pacote" da União Europeia para acudir à crise económica suscitada pela pandemia levará pelo menos dois anos a chegar. Os "corredores turísticos" soçobraram, nomeadamente com o Reino Unido, salvo nas ilhas, provocando reacções palonças dos nossos mais altos responsáveis políticos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros chegou a sugerir que os ingleses visitassem Portugal sem passar por Lisboa. Qualquer pessoa mediamente informada e séria percebe que se perderam (porque entretanto se propagaram novas) cadeias de transmissão. Há "cogumelos" de covid a brotar um pouco por todo o lado.

Também há férias, férias e trabalho, vida "normal". Sociabilidade, em suma, com um vírus de carácter eminentemente social à solta. E com a autoridade política do regime desfeita por conta própria. Isto não vai ser bonito de se ver.

*Jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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