Opinião

Os lares

A virtuosíssima rainha D. Leonor, esposa de D. João II, quando instituiu as Misericórdias no final do século XV - e que, depois, D. Manuel expandiu nos primórdios do seguinte - não poderia imaginá-las no centro de grandes polémicas em pleno XXI. Não sei se ainda se encontram "ao serviço de Deus e de Nossa Senhora", mas é muito duvidoso que estejam eficientemente ao serviço dos homens, ou, na linguagem de então", a dar devida "pousada aos peregrinos". A paciente pandemia pôs a nu, não apenas em Portugal como no resto do Mundo, o estado a que os estados deixaram chegar o funcionamento dos apelidados lares e estabelecimentos equiparados para acolhimento dos nossos mais velhos. Não só, claro, os estados, como a sociedade enquanto tal, uma vez que há de tudo na matéria. Os nossos mais velhos são tão, ou mais, responsabilidade individual e colectiva que as crianças e os jovens. Sem eles, nenhum de nós teria chegado aqui. E, perdoem-me a vulgaridade da citação - de Evelyn Waugh -, as únicas certezas que possuímos são as do passado. Para além dos lares das IPSS, onde se incluem as Misericórdias, temos instituições privadas propriamente ditas e instituições ilegais. Ainda este fim-de-semana, em Évora, trinta e nove pessoas, entre utentes e funcionários, apareceram infectados com covid-19. Em um lar em Monsaraz, também no Alentejo, morreram dezoito pessoas neste Verão e ainda ninguém sabe por que morreram. Todos os dias a DGS anuncia "surtos infecciosos" em lares, independentemente da respectiva propriedade, mas certamente todos sob a tutela técnica da Segurança Social. Deus ou Nossa Senhora, na sua infinita misericórdia, não são ouvidos nem achados na parte do negócio que estes estabelecimentos também, fundamentalmente, são. Mesmo nas Misericórdias, os utentes e as suas famílias pagam a prestação do serviço mesmo com as comparticipações estatais. Os familiares, em circunstância alguma, devem apartar-se de seguir os seus, nestas instituições, sejam privadas ou públicas. O Governo colocou no sector um erro ambulante de "casting". Porventura amiga do dr. Siza Vieira, que passou a ter "quotas" políticas no executivo, a antiga secretária de Estado do Turismo não possui perfil nem bagagem para uma coisa destas: trabalho e segurança social. É politicamente desastrosa e arrogante. Nesta fase da vida, o que estas pessoas mais velhas necessitam é de se sentir confiantes. No Estado, nas instituições e nos seus, se é que os seus se preocupam. Eu, valha o que valer, preocupo-me.

*Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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