Opinião

Jorge de Sena, 40 anos depois

Jorge de Sena, 40 anos depois

No PREC, como Ana Sá Lopes recordou no "i", o Dia de Portugal desapareceu. O 10 de Junho esteve politicamente suspenso entre 1974 e 1976. Ramalho Eanes tomaria posse como primeiro presidente eleito do regime democrático apenas em Julho de 1976. Só no ano seguinte, na Guarda, o 10 de Junho entra oficialmente na história da III República como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Não houve outro como aquele, com Vergílio Ferreira e Jorge de Sena. Nestes 40 anos muita gente falou e passou pelo "10 de Junho". Milhares de veneras foram distribuídas e rapou-se o tacho à "portugalidade" consoante a circunstância e o local pediam mais disto ou daquilo. Camões foi discretamente empurrado do pódio oficioso para a retórica das "comunidades" poder entrar. Ou, melhor, para o poder político, tristemente folião e superficial, ir ter com as "comunidades". Marcelo e Costa repartiram as festividades entre uma cidade nacional e outra, fora de portas, que albergue portugueses. Em um ano e três meses de mandato presidencial, o "Dia" já passou por Lisboa, por Paris, pelo Porto, pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, anunciando-se os Estados Unidos para a viagem de 2018. Temer, mesmo tremido, ignorou a presença de Marcelo no Brasil. Para já, a Venezuela não consta destes planos de turismo político apesar do milhão de compatriotas nossos que por lá anda nas ruas da amargura. Jorge de Sena, em Junho de 1977, não se enganava. "Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou seja, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião (...). Sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA

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