Opinião

Leiam

Ontem, ao telefone com um amigo com quem colaborei na política, afirmei-lhe que ia deixar de escrever sobre, precisamente, a política. O que passa por política, aqui, está num estado tão calamitoso que não me apetece contribuir para as lérias em curso.

Quem quiser, liga a televisão "informativa" onde todos os dias é servida uma salada mista de "comentadorismo" tartufo em que todos, e cada um, falam sobretudo para eles e para a sua "agenda" cá fora, sem um acrescento ou mais-valia para o espectador. É como os relatos da bola, nas mesmas televisões, em que só eles estão a ver o campo. Os espectadores "vêem", e ouvem, apenas o que os relatores querem que eles vejam e ouçam. São conversas fiadas que, na expressão feliz de José Paulo Fernandes Fafe, não estimulam actos de ruptura. A boa alternativa a esta ruminação audiovisual continua a ser ler. Ler selectivamente jornais, revistas e, à cabeça, livros. Miguel Esteves Cardoso colocou o dedo na ferida. "À minoria bem educada não convém que haja muita gente bem educada - a concorrência é danada - e, por isso, defende que se gaste o dinheiro que há noutras coisas, todas importantes, sem dúvida, mas nunca tão importantes como a saúde e a educação". Miguel chama a isto "a abdicação das responsabilidades da elite" que não perdoa "o produto número um da educação: a ingratidão, a saúde da ingratidão" ("Público", 21.3.2021).

Encontramos nas 174 páginas da reedição do livro "Pensar o que aí vem", de Manuel Maria Carrilho (Grácio Editor, 2021), outras palavras para outra constatação. "Somos melhores a explicar do que a compreender, valorizamos sempre de mais os estereótipos que nos rodeiam e lidamos mal com a incerteza e o imprevisto. E não se aprende, por mais que os imprevistos se multipliquem", como "agora, com a pandemia da covid- 19". Em suma, "vamos ler", que é o imperativo do livrinho de Eugénio Lisboa intitulado "Um cânone para o leitor relutante" (Guerra&Paz, 2021). À semelhança do que Lisboa sugere, não é forçoso dizer ao leitor céptico ou relutante que deve começar pela grande literatura, histórica, novelística ou outra. Pode, por exemplo, digo eu, pegar num livro que resultou do Facebook. "Um homem é um homem, um gato é um bicho, 2015-2020" (Âncora Editora, 2020) é um "diário" de José Paulo Fafe, que citei há pouco, oriundo de "posts" seus naquela rede social. "Tento escrever curto, sem grandes cuidados literários e de forma directa". Tudo o que a maior parte dos nossos palradores e poetastros, na política ou na literatura vária, não consegue fazer. Leiam.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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