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Opinião

Macron e a Europa

A 1 de Maio de 2002 estava por acaso em Paris. Tinha ido descansar disto e aproveitado o convite do malogrado escritor Denis Belloc (que tinha conhecido em Lisboa através de um amigo comum) para ficar na casa dele. Na verdade, cedeu-me a casa e mudou-se essa semana toda para a de um amigo, lá perto, um simpático jurista que fora chefe de gabinete de Roland Dumas. Nesse 1.º de Maio, para além das manifestações do Dia do Trabalhador, também desfilou a Frente Nacional a pretexto de Jeanne d"Arc. Faltavam quatro dias para a segunda volta das presidenciais. Jacques Chirac, o presidente recandidato, enfrentava Jean-Marie Le Pen que tinha passado por cima de Jospin e entrado inesperadamente no torneio final com apenas menos um ponto percentual que Chirac (19, 18, mais ou menos). Saindo à rua todos os dias, todos os dias e onde quer que fosse havia manifestações, fosse sob que forma fosse, contra a FN. A "frente republicana" e um combate fortíssimo à abstenção deram a vitória a Chirac com 82% dos votos. Le Pen, o pai, não "cresceu" entre as duas voltas. Agora tudo mudou. Marine Le Pen aparentemente conseguiu dissolver a ideia de suprema representante do "mal" e revela intenções de voto que mais que duplicam a votação do patriarca em 2002. O próprio regime ajudou a trivializá-la apesar da insistência frívola na extrema-direita. E, paradoxalmente ou talvez não, o "povo de Esquerda", representado pelo horrível Mélenchon, parece indiferente ao desfecho eleitoral quando há 15 anos fervia de indignação. O que verdadeiramente não passou à segunda volta foi a V República do PS e dos Republicanos. Macron, com a Europa e o euro, e Le Pen fora da Europa e do euro (embora calada tacticamente sobre este ponto à espera de domingo) pretendem, por vias totalmente distintas, acabar com a cultura "da candura e da irresponsabilidade" em que temos vivido no chamado Ocidente. E recuperar para a França e para a Europa uma certa "imagem de virilidade histórica" perdida nas impotentes "cimeiras decisivas" e no amoralismo geral reinante (aqueles termos são de Peter Sloterdijk num livro com Alain Finkielkraut, de 2003). Enganam-se, porém, os patrioteiros de pau de bandeira oco que supõem a "salvação" colectiva fechada a quatro portas fronteiriças, algo que, por exemplo, une Le Pen ou Mélenchon a Jerónimo e a Catarina. É por isso que o voto dos franceses, não parecendo, nos interessa. Como nos interessa apenas a vitória de Macron.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA

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