Opinião

Marcelo, excepção e regra

Marcelo, excepção e regra

Marcelo Rebelo de Sousa "herdou" o Governo de Costa previamente empossado por Cavaco Silva. É um Governo de iniciativa parlamentar, do segundo partido mais votado nas legislativas de 2015, com apoio maioritário de tudo o que mexe à Esquerda do PSD. Depois de Março último, o presidente decidiu levar mais longe do que o antecessor a chamada cooperação estratégica e institucional com o Executivo. Convolou-a em cooperação política. Marcelo não quer desculpas de Costa e dos seus aliados se, por qualquer acidente externo ou interno, a coisa se quebrar. Há horas e horas de gravações televisivas para comprovar o "colo" político e mediático dado ao Governo por Belém, quer a nível nacional quer em visitas ao estrangeiro. É neste registo que podemos interpretar, depois de dezenas de declarações públicas sobre a Caixa, o "recolhimento" recente do presidente aquando da manutenção dos vencimentos dos novos administradores do banco por Costa ("manda quem pode", afirmou) quando Marcelo os desejava reduzidos. Por outro lado, Marcelo, popularíssimo quando não popularucho, tem condições para decidir levar a cooperação política com o Governo até onde quiser sem ir mais além, para recorrer a um truísmo famoso de Salazar. Foi o que aconteceu este fim-de-semana a pretexto do anunciado encerramento de uma companhia teatral de Lisboa. Marcelo foi sozinho, com as câmaras das televisões (que estavam lá, presumo, para cobrir o derradeiro espectáculo e não convocadas pelo presidente), falar com os respectivos dirigentes teatrais antes de o show começar. E, diante do país e dos actores da companhia, sorridentemente "obrigou" o ministro da Cultura a pensar num regime de "excepção" para aqueles agentes culturais. Naquele momento exacto, Luís Castro Mendes, que inexistia como ministro da Cultura (o próprio ministério inexiste praticamente há 16 anos), esfumou-se definitivamente por entre as brumas teatrais por obra e graça de Marcelo. Não sei se o chefe de Estado se deu conta, mas aquele instante abriu um precedente político. A partir de agora, os agentes culturais ou outros, individuais ou colectivos, privados ou públicos (e Deus e as finanças sabem como são ávidos de apoios e subsídios, mesmo os mais "independentes") sentem-se autorizados a vergar os concursos que não lhes agradem. Ou, mesmo sem concursos, a recorrer ao PR para tentar obter a sua "excepçãozinha". Com a ideia generosa de "excepção", Marcelo abriu portas para uma "regra". É melhor Costa ir-se habituando.

*JURISTA

PUB

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG