Opinião

Não escapa um

Escrevi no "Facebook" a defender a opinião de um jornalista, professor universitário na área da comunicação social e cultural e crítico de televisão num outro jornal.

Ele, Eduardo Cintra Torres, havia opinado sobre a transmissão do "eurofestival da canção", chamando a atenção para aquilo em que o dito evento se transformou nos últimos anos. E foi atacado impiedosamente, nas "redes", pela correcção neofascista. Defendi-o e recorri a exemplos pretéritos de boa memória dos anos 70: Paulo de Carvalho, o do "E depois do adeus", e os "Abba", de "Waterloo", os vencedores desse ano marcante de 1974. Tudo o que o presente "kitsch-queer" não permite porque tudo ali se esquece no segundo após e morre às mãos do próximo espectáculo estupidificante. No dia seguinte acordei com o post eliminado, isto é, totalmente censurado. E eu castigado com um dia de suspensão no "Facebook". Só podia ler, estava impedido de publicar ou de reagir a publicações alheias. Motivo? Cito: "discurso de incentivo ao ódio". Sem comentários. Agora a sério. Miguel Poiares Maduro, num artigo recente, fundamentado, chamou a atenção para estudos externos que já não consideram Portugal uma democracia liberal. Não me admirei. Sobretudo não me admirei por praticamente ninguém se indignar com isso. Os portugueses nunca foram particularmente amigos das liberdades públicas. E o poder político, ainda menos. A 16 de Julho entra em vigor uma coisa designada cinicamente por "Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital". Sob a forma de lei, aprovada sem um voto contrário no Parlamento, a "Carta" resultou de propostas do PS e do PAN. Marcelo promulgou-a e Costa referendou-a. Segundo o sr. José Magalhães, deputado do PS, é tudo a bem da nação, isto é, da "transparência, precisão, inclusão e justiça" e dos "padrões de confiança" do que se publica. O Estado, lê-se no artigo 6.o da "Carta", é o "garante" deste encantador "direito à protecção contra a desinformação" como nas democracias iliberais e nos regimes totalitários. O Estado, através da ERC, esse aleijão instrumental do poder, será o "caixa" das "queixas" a que se juntarão "estruturas de verificação de factos" a criar. Ou seja, o Estado passa a decidir o que é a verdade ou a mentira, incentivando a atribuição de "selos de qualidade", estilo medalhas Lenine, depois de "entidades fidedignas" (sic) decidirem quem os merece, e apenas no campo dos "órgãos de Comunicação Social devidamente registados". É a "Carta" dos novos coronéis censores do Estado a que isto chegou, sob o alto patrocínio da bufaria e dos tipos que elegemos. Todos. Não escapa um.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

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