Opinião

Não estaríamos já enlouquecidos?

Não estaríamos já enlouquecidos?

No próximo sábado, rezava um dos milhares de "estudos" que a pandemia pretextou, Portugal estaria liberto de covid. Tão certo como, em Agosto, recebermos meia dúzia de jogos de futebol da "liga dos campeões", a título de híbrido entre "honra nacional" e "milagre".

Mais subtil que os "estudos", o vírus apreciou a "abertura" generosa do país. E, aparentemente, decidiu passar férias por cá. Não apenas por cá, mas o suficiente para frustrar legítimas expectativas turísticas. É verdade que o regime fez o que pôde para atrair "corredores" turísticos, dando aviso prévio que, fora dezanove freguesias de Lisboa, a nação persistia tão encantadora por todo o lado como nos programas das agências. "Lisboa a laser", lia-se ontem numa tradução de telejornal da fala de uma turista acaba de aterrar aqui, é que não. Ou seja, ela vinha informada que devia afastar-se de actividades de lazer em Lisboa. Não sabia todavia porquê. Não vale a pena, realmente, juntar a tantas infelicidades as lamentáveis trapalhadas da nossa "comunidade" político-científica que conheceram, a semana passada, desenvolvimentos patéticos. Ao fim de uma dezena de reuniões das "elites" no auditório do Infarmed, o alto patrocínio do chefe do Estado e do primeiro-ministro acabou com elas. Costa já tinha ditado o fim delas na penúltima. Marcelo limitou-se ir a correr atrás do prejuízo (dele enquanto PR e putativo recandidato ao cargo) e encerrou-as com chave de latão. Embora defeituosas, as reuniões ainda eram o único elo de comunicação das "elites" com o país em matéria de pandemia, sobretudo depois dos apressados e mal avaliados desconfinamentos de Maio e Junho. Havia sempre alguém a babujar a verdade possível que a retórica oficial travestia de redondilhas. Como se isto não bastasse, as "autoridades", a saber, o Governo, a DGS, e o PR até quarta-feira da semana passada, tomaram por bom um "boletim" diário que acabou revisto no fim-de-semana. Sabia-se, desde a semana fatal do "25 de Abril", que o "boletim", quando muito, só servia como indicador. Mais valia acabar com ele nos termos em que vigora. Entendamo-nos. Este vírus, mais um, já faz parte das nossas vidas. O que o país espera das "elites" é preparação e menos "pensamento que calcula" votos. Uma vez que, em precaução e prevenção, a sociedade antecipou-se como pôde. Não voltará a antecipar-se, evidentemente. Manipulando Bernard-Henri Lévy, é de certeza "este vírus que nos enlouquece"? Não estaríamos já enlouquecidos?

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista