Opinião

Não há bipolarização

Não há bipolarização

É provável que hoje ou amanhã o presidente da República diga ao país como viu os jogos florais dos derradeiros 15 dias. E que indigite o primeiro-ministro que, pela "lógica" que não prevaleceu neste interregno, deverá ser Pedro Passos Coelho. A partir daí o "cenário" criado pelos resultados eleitorais de 4 de Outubro passa a ter de ser encarado com realismo e sem estados de alma. Julgo que não vale a pena "acreditar", nem que seja a título de refrigério ou de dissimulação, que a legislatura durará os quatro anos da praxe. Um Governo minoritário da coligação precisa pelo menos da abstenção do PS no essencial. O que significa o abandono de grandes veleidades "ideológicas" ou de "engenharia social", quer por parte do centro-direita - que terá agora de "carregar" nas matrizes reformadoras, a social-democrata e a democrata-cristã, dos partidos que o compõem -, quer por parte de um PS até ao momento refém do tropismo bonapartista de António Costa aparentemente disposto a qualquer coisa para se manter à tona.

Se isto funcionasse não seria inverosímil ponderar a não interrupção da legislatura como aconteceu, por exemplo, entre 1995 e 1999. Mas os sinais têm sido confrangedores como se estivéssemos à vontade para brincar às casinhas. Não me surpreenderam as jogadas tácticas do secretário-geral do PS nem a sua manifesta impreparação para liderar um Governo nas presentes condições como se constatou na entrevista que concedeu à TVI. Tal como não me admirei com a "disponibilidade" do PC, traduzida na frase emblemática "o PS tem todas as condições para formar Governo" ou na variante "o PS só não forma Governo se não quiser", numa disputa inteiramente privada com o BE que recorre à sonsice "no que depender de nós".

Partidos tipicamente de protesto, e que medram com o protesto, não aderem de repente à democracia liberal por acharem que o PS é que "bipolariza" à Esquerda. Pelo contrário, sabem que se isso acontecesse acabariam "engolidos" à semelhança do que aconteceu nos anos 80 e 90 com sectores do PC e velhos radicais. Da mesma maneira, o PS (o que não aprecia o frenesim costista) não ignora que estes cantos e silêncios de sereias à sua esquerda só "valem" para uma precária aritmética parlamentar e não enquanto legitimação política substantiva. Para assim ser, o PS teria de ir a eleições com esta novíssima "solução". E a coligação também para alcançar a maioria. Não há bipolarização.

O autor escreve segundo a antiga ortografia