Opinião

Não ter medo do caos

A semana que passou ficou marcada pela extraordinária entrevista do primeiro presidente eleito, o general Ramalho Eanes, à jornalista Fátima Campos Ferreira da RTP.

Como escreveu Medeiros Ferreira, Eanes ergueu-se sempre contra o medo sem ser por dever administrativo. Lembrou a capacidade técnica e humana das Forças Armadas, que deve ser mais bem aproveitada, para os hospitais poderem manter a "capacidade de respirar", para que "a primeira linha guarde possibilidades mais longas".

Recordou o ponto, sem retorno segundo Manuel Maria Carrilho, a que nos conduziu o individualismo. Condenou a ideia do Estado mínimo e aconselhou uma intervenção robusta, designadamente do sector financeiro controlado pelo BCE, para manter a capacidade produtiva empresarial e evitar que, a uma potencial crise económica, suceda uma crise social imprevisível. "É uma crise que não vai acabar agora", acrescentou, "afecta todos por igual, velhos e novos", mas "é obrigação suplementar" dos mais velhos "dizer aos outros que isto já aconteceu, isto ultrapassou-se, isto vai ser ultrapassado".

Eanes, exemplar em coragem física e moral, frisou que o homem é falível e mortal. Estas décadas "milenais" descuraram essa falibilidade e, pior, a mortalidade. Como se Mundo e vida fossem uma "juvenília" permanente, e não com princípio, meio e fim.

No blogue "Pensar o Mundo", Carrilho, a quem já aludi, fala numa "civilização viral", ilimitadamente auto-destrutiva, nómada, consumista e hedonista (os termos são meus), envenenada "por um presente atordoado e sem sentido", em que a democracia é "cada vez mais formal, mínima e residual", apenas sustentada pelos "cadáveres adiados" da política e dos média". Desta vez, não é somente preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. O mais provável, aliás, é que depois da pandemia geral de impreparação e dos descasos individuais e colectivos, este vírus fique entre nós à semelhança de outras epidemias da história.

Se não conseguirmos avaliar serenamente este presente sombrio - sendo ainda o que somos, mas sendo já o que seremos depois disto - é porque não aprendemos nada com o colapso em curso. Em tempo de Páscoa, este ano vivida espiritual e solitariamente por cada um de nós, o apelo à frugalidade e à humildade constitui um dever de cidadania responsável. Cristo e o escândalo da Cruz significam sobretudo não ter medo do caos. Ser forte e superar as forças da destruição. Boa Páscoa.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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