Opinião

Natal sem Natal

Estamos sensivelmente a um mês das eleições presidenciais. Tudo conflui para serem as mais medíocres, politicamente falando, destes quarenta e quatro anos que levamos de escolha do chefe de Estado por sufrágio directo e universal.

A pandemia não ajuda, mas o ambiente político também não. Marcelo, o incumbente, estará previsivelmente "adormecido" até ao acto eleitoral com a desculpa de não querer misturar o cargo com o candidato. Já se notou no caso do SEF. Por menos (não havia mortos nem violência policial), o então PR, e recandidato, Jorge Sampaio exigiu a Guterres, em Dezembro de 2000, a cabeça de um ministro e de um secretário de Estado. O PM, em isolamento profiláctico, faz de conta que não percebeu os recados que Marcelo, inutilmente, lançou através dos jornais e do pobre director nacional da PSP. E o improvável Eduardo Cabrita nomeou outro director das Fronteiras. Entretanto, atirou-se a honra de um organismo público, prestigiado pelos seus primeiros directores, Lencastre Bernardo e Manuel Palos, aos cães. No meio disto, as variadas candidaturas presidenciais vegetam num ambiente deletério de entrevistas, "deixas" e jogos florais mútuos desgraçados. Não me admira, por isso, que uma entrevista de Cavaco Silva e uma intervenção de Passos Coelho tivessem surpreendido o "meio" pela sua qualidade e acutilância. Os protagonistas da penúltima legislatura permitiram vislumbrar, por instantes, a alacridade perigosa a que se chegou em cinco anos como se o rumo se tivesse perdido, como se perdeu. Cavaco recordou que foi Passos que começou a reerguer o Estado e a economia depois da última bancarrota socialista. Passos apontou aos maus exemplos da Educação, da gestão do homicídio no Aeroporto de Lisboa, da TAP e da dívida pública para defender o Estado e a sociedade dos seus exaltados e desresponsabilizados "salvadores": o PS, o Bloco e o PC. Gente que supõe a despesa, o esbanjamento da poupança e o consumo desenfreado a manter o indigenato feliz e de rédea tão curta quanto alegre. Ao acusar, e bem, o Governo de populismo e de facilitismo, Passos Coelho deixou um alerta. "Se somos já dos países mais antigos da política de coesão, seremos em breve, se tudo continuar como até aqui, o que mais distante se apresentará de todos os outros, incluindo os da coesão e daqueles em que as desigualdades de rendimento mais se apresentarão vincadas". Que importa isto no meio do "reality show" - o termo é do meu amigo Miguel Morgado - em vigor, há cinco anos, nas instituições e nas televisões, quase uma e a mesma coisa? Bom Natal sem Natal.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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