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Portugal em transe

Nicolau no país das maravilhas

Nicolau no país das maravilhas

Vai para dez anos, noutras funções, disseram-me para não alterar uma vírgula na seguinte frase do programa do XIX Governo. "O processo de privatização da RTP incluirá a privatização de um dos canais públicos a ser concretizada oportunamente e em modelo a definir face às condições de mercado".

Levei ano e meio a entendê-la. Durante esse tempo, trabalhámos - no gabinete de Miguel Relvas, com a tutela técnica e política da RTP - afincadamente para cumprir a primeira parte. Insistimos na prioridade aos conteúdos para definir critérios de serviço público audiovisual. Não privilegiámos a empresa RTP por ser a concessionária única daquele serviço, o que queríamos alterar. Procurámos a rentabilização de activos da empresa que andavam subaproveitados. Quisemos renovar o modelo de gestão, eventualmente, até, sob a forma de concessão e não de privatização, com a ajuda preciosa de António Borges, já então muito doente, mas incansável e leal até ao fim. Não aumentámos a "taxa", nem a chamada indemnização compensatória. Não onerámos os contribuintes, pelo menos no OE de 2012 cuja elaboração, na parte da Comunicação Social, acompanhei de perto. O regime, todavia, não queria mudar a natureza do complexo RTP. O dr. Paulo Portas esperou pela altura que mais lhe convinha para largar uma frase, outra, no "Expresso". Se houvesse mexidas na RTP, então o CDS tinha de rever os termos do acordo de governação. Passos Coelho, que tinha mais com que se preocupar, deixou cair o assunto numa reunião melancólica em S. Bento, no Outono de 2012, aquando da apresentação de modelos alternativos de gestão. Gaspar fez orelhas moucas. E o regime ganhou. Miguel Poiares Maduro que, meses depois, sucedeu a Relvas, criou o Conselho Geral Independente da RTP. Filtrado pela composição circunstancial do Parlamento, o CGI passou a indicar a Administração da empresa. Foi assim que, 70 mil euros depois, pagos à consultora Boyden (onde Rio trabalhou), aparece Nicolau Santos para presidente do CA da RTP. Ainda presidente da Lusa, Nicolau nem por isso deixou de comentar nas televisões e na Antena1, de forma invariavelmente favorável ao PS e ao Governo. No grupo Impresa, chegou a promover um falso "alto funcionário da ONU" que incensou no ecrã e em prosa vária. A Oposição, a começar pelo PSD, vai deixar passar o simpático Nicolau, um homem para todas as estações. De televisão. Afinal, sempre foi Poiares Maduro, do "conselho estratégico" de Rio, quem inventou o "conselho" que inventou Nicolau. Este, por sua vez, foi inventado pelo PS. É Nicolau no país das maravilhas.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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