Portugal em transe

O cartão

O PS reuniu em congresso. Foi em Portimão, para aproveitar as férias invariavelmente algarvias da maioria. Nada de excitante havia para discutir. Quando os partidos estão no poder, os congressos são redundantes. Os militantes e os "observadores" aproveitam para sondar os que exercem directamente o poder, seja no que for, para "meter cunhas". Outros deambulam em "marcação de ponto". O chefe aproveita para rever a matéria, onde se somam invariavelmente sucessos sobre sucessos, e para anunciar mais um bocado de paraíso para os próximos tempos. O paraíso chama-se "Plano de Recuperação e Resiliência". São milhões a distribuir como as rosas de Santa Isabel. O fim dos congressos electivos, decidido pelos principais partidos do regime, e aos quais os líderes chegam previamente ungidos por votações albanesas, retirou qualquer interesse específico aos conclaves partidários. O PS até se deu ao luxo de nem sequer revelar qual acabou por ser o universo eleitoral que manteve olimpicamente o secretário-geral. Nem sempre foi assim. Mesmo com Soares, os frisos dos congressos socialistas, até à derrota de Sampaio por Guterres, constituíam momentos politicamente interessantes. Sobretudo porque o grosso daquele pessoal político era interessante e possuía biografia. O sr. César, em Portimão, chamou para a mesa o PS dos pequeninos proto-herdeiros, uma lástima político-partidária quando pensamos nos idos de 70, 80 e 90. Pessoas que naquela altura eram consideradas pouco estimulantes, quando não desastrosas, agigantam-se, mortas ou vivas, diante deste conjunto de aparelhistas abeberados nos sofás da "juventude". Não é difícil a Costa emergir disto como um líder admirável, grávido de poder e autoridade. À que, por exemplo, nos últimos quinze dias o substituiu no governo, não ocorreu melhor "ideia" do que promover uma moção cujo "pensamento estrutural" consistia na singularidade de Costa: "só o PS tem Costa, uma das vozes mais respeitadas da Europa". Palavra de honra. Mas o momento mais grotesco estava reservado para aquela que, nas palavras do chefe, é a "comandante suprema do combate à pandemia", a dra. Temido. Mais uma que, daqui a dois anos, acrescentou, pode concorrer a líder (palavra de honra outra vez). Acabada de admitir no partido, subiu ao palco para Costa lhe entregar, em mão, o cartão de militante. Depois, exibiu-o à plateia como se lhe tivesse saído uma raspadinha premiada. Não anda longe da verdade. Um cartão do PS, nos dias que correm, é mais útil que as "chaves do Areeiro". Para além disso, a nova militante imagina-se subtil, uma característica de todos os outros noviços e noviças. O cartão coloca-a ao nível deles. E eles ao nível dela. Viva o PS.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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