Opinião

O erro irreversível

Vila Real de Trás-os-Montes acolheu por estes dias o congresso da Associação Nacional dos Municípios Portugueses.

É um organismo típico daquilo que convencionou chamar-se o bloco central no qual PS e PSD alternam na respectiva direcção, consoante um tem mais ou menos autarquias que o outro. A última vez que se enfrentou esta corporação, uma das portas mais perversas que Abril "abriu", com o seu cortejo infindável de fundações municipais, juntas e demais mordomias, foi com a reforma da administração local, em 2011 e 2012, protagonizada politicamente por Miguel Relvas e Paulo Júlio.

Com o regresso do PS ao poder, o bloco central autárquico espreitou imediatamente a oportunidade de, a pretexto de eleições para as sinistras CCDR, as "comissões coordenadoras de desenvolvimento regional" - o mais parecido que temos em anagrama soviético, e não só, com a defunta URSS -, ressuscitar a regionalização, sob a capa da "descentralização" e de um amor acrisolado e dissimulado ao interior. As CCDR são uma espécie de "banco alimentar" da rapacidade dos oligarcas dos partidos, pelo que não é de estranhar que Costa tivesse ido a Vila Real prometer-lhes eleições no primeiro semestre do ano que vem a fim de dar lugar aos, e cito-o, "passos seguintes", nomeadamente afastando os "entraves a quaisquer desenvolvimentos futuros no processo de regionalização".

Costa, enquanto membro do Governo de Guterres em Novembro de 1998, foi um dos derrotados do referendo em boa hora convocado por Sampaio sobre a regionalização. E Marcelo, à altura presidente do PSD e o grande impulsionador desse referendo, um dos vencedores. Não estranhei, por isso, que também tivesse ido a Vila Real dizer aos autarcas para não colocarem o carro à frente dos bois e não embarcarem num "erro irreversível". ´

À regionalização encapotada que o PS e o Governo andam a promover, é natural que o presidente da República responda branda e educadamente num fórum que era público. Cá fora, todavia, não é preciso tanta brandura. Deve ser-se absolutamente intransigente contra a regionalização e as sucessivas farsas, mais ou menos de secretaria em que o primeiro-ministro é especializado, que vão ser montadas para lá chegar. Como escrevo no livro "Linhas direitas - cultura e política à Direita", nada na nossa história, língua, geografia ou identidade nacionais justifica a obsessão regionalista, salvo a criação de mais lugares político-partidários pelo país. Aliás, uma ex-senhora CCDR, do PSD, está agora ministra do PS. Não é por acaso.

*JURISTA

Oautor escreve segundo a antiga ortografia