Opinião

O estranho caso do dr. Rui Rio

O estranho caso do dr. Rui Rio

Cerca de 40 mil militantes do PSD votaram na escolha do seu chefe para os próximos dois anos. Resultou que o titular Rio e Luís Montenegro ainda vão disputar o título, numa segunda volta, no próximo sábado.

À frente, mas sem maioria absoluta, Rio foi igual a si mesmo, ou seja, falou de números e do "poucochinho" que lhe faltou para ganhar logo à primeira.

Usou termos da matemática, como o "denominador comum", para explicar como se engorda uma percentagem. Explicou como se faz a "unidade" no partido que tem na cabeça dele. Todos devem unir-se em torno do mais forte que é ele, o homem que ficou a 0,56% de militantes eleitores de se reconsagrar logo líder absoluto. Praticou o auto-elogio com a enumeração das suas inúmeras vitórias, desde a associação académica da universidade até esta, de anteontem, mencionando, como se não fosse nada, como única derrota a das últimas legislativas em Outubro.

Depois insistiu nas suas magníficas "ideias fortes". A Rio é indiferente de onde brotam as propostas e as ideias. Se ele achar que são boas, apoia. O que é contraditório com a "ideia maior" do seu magistério presidencial. De facto, Rio quer "Portugal ao centro" o que, na cabeça dele e da sua apoiante Ferreira Leite (cito-a porque é comentadora televisiva recorrente), quer dizer duas coisas. A primeira, que é preciso "salvar" o PS dos partidos radicais à sua Esquerda e das más "ideias" que estes instilam no PS. A segunda, que decorre do sucesso ou insucesso da primeira, é que, não se conseguindo isso, então o tal "centro" fica livre para ser ocupado pelo PSD. Para Rio, o poder concebe-se ao "centro", isto é, com o que o PS deixar que o PSD ocupe desse espaço.

Em suma, Rio não quer ser o líder do espaço natural à Direita, alternativo e maioritário, ao PS. Quer, se não der demasiada maçada, que o PS não passe tanto cartão à sua Esquerda e ao radicalismo. Se continuar a passar, com certeza que o país olhará para Rio como a declinação boa do "centro" e remeterá o PS a outras paragens. Em resumo, para Rio existe um "PS mau", o de Costa e dos seus aliados parlamentares, activos ou passivos, e um "PS bom" que seria o PSD dele. Na verdade, a Rio não ficou a faltar "poucochinho" para se sagrar, de novo, chefe de uma coisa a que manifestamente pretende atribuir o destino funesto de pequeno ou médio partido. A Rio falta o que não se encontra em nenhuma das "contas" e percentagens que alberga na sua cabeça: uma autoridade política reconhecida pelos dele e, depois, pelo país, a única que interessa. É um caso estranho, este do dr. Rio. Não tem cura.

*Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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