Portugal em transe

O grau zero da Direita

O grau zero da Direita

Já foram provavelmente ditas, e escritas, todas as palavras fundamentais sobre as eleições. Para além disso, o vencedor, António Costa, apenas precisou de quatro dias úteis para pôr e tirar a chamada "geringonça" do coração, presumivelmente o dele, uma vez que no domingo à noite ainda lá a tinha.

A circunstância de, desta vez, ter ficado à frente mudou evidentemente tudo. Não precisava de derrubar um governo, como em 2015, nem precisava de andar a assinar papeletas com o radicalismo e o PC para se alçar ao Governo. Também não tinha pela frente a grande causa daquela "união" circunstancial: Passos Coelho e uma Direita unida.

Minoritário, adquiriu imediatamente legitimidade para formar o Governo que quiser sem precisar de quase um mês de ópera bufa como então. Finalmente, Marcelo avisara que, por ele, não seriam necessárias papeletas, vulgo, acordos para aceitar empossar o PS. Ou seja, Costa está como quer, fará como quiser e, com sorte, não lhe faltarão parceiros parlamentares, por acção ou omissão, para o deixar fazer.

O único obstáculo a esta anunciada beatitude chama-se precisamente Marcelo que, neste contexto pós-eleitoral, foi vencedor e adquiriu outra liberdade de acção política. Todavia, mesmo o presidente não vai desejar chatices até à recandidatura, como tem sido costume desde que o regime se parlamentarizou.

E à Direita? Bom, à Direita Rio deve ter a tentação de ficar até porque as contas eleitorais não foram tão más como se anunciavam. Pelo menos ganhou o direito de disputar a liderança do PSD se lhe apetecer.

Cristas, muito digna na noite eleitoral, não fará isso no CDS, um partido que recuou brutalmente em votação e deputados.

Daqui em diante a Direita só pode ser pensada em conjunto, e reconfigurada, dada a emergência parlamentar de dois novos partidos e o desejo de o que resta da Aliança em continuar. Todos os que avaliam o futuro próximo da Direita com os parâmetros caciqueiros das décadas passadas, estilo lavandarias privativas de chefes precários sem dimensão nacional, perderão.

Rio foi o primeiro dessa série tribal e já estão anunciados mais um ou dois. Não adianta. A paciência e a ponderação são os melhores sinais de resistência para o que se avizinha, sem repentismos improvisados ou calculados. Sem chacais e sem hienas, a Direita até pode ter de começar do zero e encarar isso como uma oportunidade. Em sessenta e dois anos de "gaullismo", é só contar as transfigurações por que passou a Direita republicana francesa. Porventura somos melhores que eles?

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia