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O impasse democrático e a era das geringonças

O impasse democrático e a era das geringonças

Neste jornal, ontem, lemos uma sondagem que, sem ir agora ao detalhe, mostrava aquilo a que se apelida de "direita", toda junta - partido "Chega" incluído, para grande aborrecimento da direita de melaço -, a superar, nas intenções de voto, a "esquerda". Esta, igualmente somada, descia graças, sobretudo, à erosão do Partido Socialista no governo de maioria absoluta, já que o PSD apenas subiria dois pontos percentuais.

Firme no seu terceiro posto anda o "Chega", o que obriga a distintas manobras no "meio", político e comunicacional, uma vez derrubado o mito da intangibilidade da extrema-esquerda, "normalizada" nestes últimos sete anos pelo PS. Repare-se que o único que ganhou com a "social-democratização" do Bloco foi o PS e, mesmo este, já está a "perder". Na segunda parte do livro "A democracia no seu momento apocalíptico", de M. M. Carrilho, que vinha a ler aqui desde a semana passada, estes transes das esquerdas autóctones, e do PS, em particular, encontram-se particularmente bem pensados (da perspectiva do autor que ainda é militante socialista de base), subtraindo-os ao circunstancialismo oportunista e tacticista dos protagonistas, e integrando-os numa visão mais alargada do impasse democrático geral, coetâneo do progresso do autoritarismo. Isto é, e como revela a forma de divulgação das sondagens e dos "estudos de opinião", cada vez mais as escolhas são de governantes e não de projectos ou de ideias (erosão ideológica, na expressão de Carrilho). E cada vez mais os governantes sucumbem, ou a sua cibernética político-partidária de apoio, diante do guiché de atendimento ao ilimitado individualismo que vocifera na longa fila de espera alimentada, há anos, pelo extremismo de centro que, entre nós, já foi do Bloco ao praticamente extinto CDS. O conceito porventura mais inovador neste livro de Carrilho é o deste aparente paradoxo, o extremo-centro, que domina a política nacional e europeia, em geral, o mais perigoso e o mais dissimulado de todos os extremos. Para dourar a pílula demo-liberal, certamente, como se a democracia - ou o indivíduo - fosse eterna. Num momento em que tudo interage com tudo (J. M. Júdice na apresentação do livro), estranhamente, ou talvez não, vivemos um tempo de ignorância (Carrilho), e persistimos felizes com isso no nosso "infotretenimento" (idem). É a "era das geringonças", no feliz neologismo de Carrilho a partir de Vasco Pulido Valente, denotada na sondagem aludida. "Era" em que as performances se sobrepõem aos programas, os interesses às ideias, o estilo à substância, o conectivo ao colectivo, o societal ao social, o consumidor ao cidadão, o indivíduo à pessoa, o global ao nacional. E é assim, "ora em júbilo, ora em depressão", que cá vamos. Não sei se cantando e rindo.

*Jurista

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

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