Opinião

O irritante

Por esta altura, há oito anos, encontrava-me em Luanda a acompanhar o então ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, enquanto membro do seu gabinete, numa visita oficial a Angola.

Quando me perguntavam pela comitiva, esclarecia invariavelmente que a comitiva era o ministro e o adjunto. De resto, e para os encontros com as tutelas angolanas homólogas, apenas comparecíamos os dois e o nosso excelente embaixador, o actual secretário-geral da CPLP, Francisco Ribeiro Telles. Ocasionalmente, juntavam-se outros portugueses responsáveis por empresas sob tutela do ministro, designadamente a Lusa e a RTP, no Desporto, Fernando Gomes, o presidente da LPF, ou a insuspeita Rosa Mota que até ia dar uma corridinha com o ministro, manhã cedo, na baía de Luanda. Os homens das associações de autarcas também estavam em Luanda para os mesmos efeitos sem, repito, integrarem qualquer "comitiva governamental" que não existia. A RTP tinha lá uma equipa conduzida pela Fátima Campos Ferreira há uma ou duas semanas para preparar um "Prós e contras" directamente de Luanda. Foi uma decisão da RTP. Ninguém do gabinete do ministro, muito menos o ministro, "encomendou" o exercício. Estiveram presentes empresários de Portugal e de Angola e, no hotel Epic Sana, decorreu um simpósio sobre as relações económicas e comerciais entre os dois países. Visitámos informalmente o cardeal emérito de Luanda, D. Alexandre do Nascimento, na sua residência, e fomos recebidos pelo dr. Carlos Feijó, então chefe da Casa Civil do presidente José Eduardo dos Santos. Conto isto porque me irrita a rapidez com que, entre nós, andam por aí a evitar estar do lado pretensamente errado da complexa história das relações com Angola depois da guerra civil. Fui testemunha de contactos institucionais processados na maior correcção e respeito mútuos. Pelo contrário, habituei-me a ver aqui governos, reguladores, assessores, consultores, advogados de negócios, banqueiros, operadores e agências de Comunicação Social, etc., descarados exercícios de admiração unilateral, quando não de temor reverencial, face à familiar mais conspícua do antigo chefe de Estado de Angola. E, mais recentemente, idêntica prática, sob os mais altos patrocínios políticos, diante dos novos poderes angolanos que, na verdade, sempre lá estiveram. É tão feio o que se tem vindo a divulgar - e não propriamente a saber, como certos neovirgens querem fazer crer - quanto algumas "reacções" que só podem suscitar "ironias e cansaços". Irritam.

* JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG