Opinião

O mal

Não vale a pena iludir a presente situação nacional e mundial. Como dizia o outro, a pior forma do medo é o medo do medo. Temos todo o direito, e talvez mesmo o dever, a ter medo sem que isso leve a qualquer forma de suspensão do juízo.

Não existe presentemente qualquer certeza, a não ser muito ténue, do que isto é, de como se detém eficazmente. E, sobretudo, quando. Uma coisa é já mais do que tragicamente certa. É um mal que cresce proporcionalmente ao aumento do tráfego societário. As elites políticas, sociais, económicas e culturais, com a mediação das mais sofisticadas plataformas de comunicação social, prometeram mil anos de felicidade pessoal e colectiva induzida por sistemas democráticos e abertos. O financismo, independentemente da sua origem - comunista, na China, ou capitalista, social-democrata, socialista ou liberal no resto do Mundo -, estimulou comportamentos, equipamentos e possibilidades ilimitadas de uma ilha. À circulação espontânea de bens e serviços, para acudir às diversas necessidades das "cadeias" primárias, ou não, de sobrevivência, seguiu-se a circulação infinita de pessoas. A virtual, pelas vias informáticas, redefinindo o mundo das empresas e o mundo do trabalho. Mas muito a física, através do turismo. Já esta crise pandémica estava bem definida, a semana passada, e a França ainda precisava de recolher mais de cem mil veraneantes gauleses. Aqui, em menor escala, houve quem também decidisse "turistar" recentemente, obrigando o Estado a ir buscá-los. O país está legalmente em estado de emergência que se deverá prolongar para além de um primeiro período de quinze dias. As primeiras medidas governativas no âmbito de tal estado só entraram em vigor ontem à meia-noite. É fundamental que sejam cumpridas voluntariamente ou pelo sabre, como disse João Franco, o ministro de D. Carlos, noutras circunstâncias. Se alguma coisa estes dias de trevas nos têm ensinado é o poder do inesperado, na sua versão maligna, e a impotência do ilimitado, sugerido pelas elites e seguido à risca pela "massa". Nada ficará como o antigamente de há apenas umas semanas e dias. Está em curso um longo ponto de chegada sem que se vislumbre novo ponto de partida. Pequenos grandes gestos podem fazer a diferença vital. O mal pode ter vindo para ficar sob outras formas depois de desaparecida esta. Thomas S. Kuhn, em "A estrutura das revoluções científicas", sintetizou isto perfeitamente. "Uma revolução é uma espécie de mudança especial que envolve um certo tipo de reconstrução dos comprometimentos de um grupo". Serve para o bem e para o mal.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG