Opinião

O Mundo e um fraldário

O Mundo e um fraldário

A Feira do Livro de Lisboa, de acordo com os organizadores, é dedicada à família e, por consequência, declara-se mais "amiga" das famílias que certames de anos anteriores. Esta devoção familiar - presumivelmente já nos termos das alterações produzidas ao Código Civil na parte do Direito da Família - traduz-se em vastos espaços lúdicos para acolher as criancinhas (as de berço, ou mesmo as mais velhinhas para não se cansarem, andam em carros de mão para o efeito) e, eis a novidade, em um fraldário. Os pais podem, assim, deitar a cria indemne em cima de um Guedes de Carvalho, de uma Cristina Ferreira ou, em casos de maior sofisticação, de um Dylan ou de uma Ferrante acabados de comprar, enquanto lhe trocam a fralda em espaço apropriado. Uma feira nestes propósitos, com intervalos para ver e manusear livros entre gigantones, provas de vinhos e chouriças, pizzas, farturas, balões e "praças" de várias cores e feitios, só podia ter sido pré-inaugurada pelo doutor Marcelo de partida para os Açores. Marcelo representa na perfeição o "criancismo geral do Estado" reinante, tão bem ilustrado pela feira. No dia a seguir, precisamente o "da criança", António Costa esteve numa escola básica onde brincou com um palhaço e com as palavras num exercício repugnante de mau gosto. O estado a que isto chegou irradia, pois, felicidade a propósito de tudo e de nada, incutindo nos portugueses o gosto pela lubrificação exclusiva do chamado hemisfério não verbal dos respectivos cérebros. Lá fora, porém, o Mundo já não pula nem avança como a bola colorida do verso do Gedeão pretendia ao colocá-la nas "mãos de uma criança". O Ocidente, uma coisa que nos habituámos a conceber e em que confiávamos, juntando as duas margens do Atlântico, tem agora um líder que George Steiner resumiu adequadamente: "há momentos em que Trump é extremamente astuto e outros em que é infantilmente estúpido, e são estes aspectos que o tornam tão perigoso". Logo quando o terrorismo, fora dos teatros de guerra habituais, a declarou à cidadania ocidental e ocidentalizada. Um terrorismo nascido já no Ocidente, ou importado em nome dos melhores sentimentos, para matar. Como Scruton explicou, esta gente responde à anomia e ao desleixo ocidentais obedecendo unicamente à sua fé, "necessariamente superior ao caos moral que os rodeia". O que é que isto nos pode dizer respeito se temos, graças a tantos santinhos, um fraldário para exibir numa feira de livros?

*JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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