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Opinião

O país está perigoso

O país está perigoso

Os estaleiros de Viana do Castelo produziram um navio de recreio. Costa e Siza Vieira, pelo Governo, e o presidente socialista da Câmara homónima - ex-agente funerário do PS aquando da assinatura dos protocolos que resolveram a questão - apareceram na festa de apresentação do barco vestidos a rigor e despidos de qualquer sombra de vergonha na cara. O cantor Abrunhosa e Carla Bruni embelezaram o acto com cantorias. A Bruni não sabia, nem tinha de saber, que estava rodeada de farsantes, a começar pelo colega músico que, poucos anos antes do evento, dera a "voz" por um ridículo "salvem os estaleiros" no preciso momento em que o então ministro da Defesa, José Pedro Aguiar Branco, os salvava sem espectáculos políticos bafientos e degradantes. Tudo foi feito e exibido como se os farsantes presentes tivessem sido os recuperadores da dignidade económica dos estaleiros, e não uns meros parasitas circunstanciais de iniciativas alheias. Nem uma palavra, claro, para o Governo de Passos Coelho, nem um convite a Aguiar Branco e, para culminar, a maioria de Esquerda parlamentar ainda chumbou um voto de congratulação pelo sucesso dos estaleiros proposto pelo PSD.

Nada que espante. Uma legislatura assente na amoralidade política e na hipocrisia funcional não podia proceder de outra forma. A mesma maioria amoral, pela calada das votações, também aprovou um diploma para poder meter a pata na Casa do Douro. Querem transformá-la em associação pública de inscrição obrigatória dos lavradores, produtores e comerciantes, recuando a antes de 1756, altura em que foi criada a Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro sem participação da então Fazenda Real. Sem esta, ou seja, sem o Estado, a Região Demarcada contribuiu em quase 600 milhões de euros para a economia nacional, através das suas exportações, só no ano passado. Em 2014 - altura em que o Governo estatuiu a Casa como associação de direito privado, de inscrição voluntária e com gestão resultante de concurso - sobrava uma dívida de 160 milhões ao Estado. Nem ao Marquês de Pombal ocorreu um diploma sovietizado como o desta maioria, totalmente desconhecedor da situação económica da região, das suas capacidades e da sua evolução institucional, sobretudo entre este regime e o antecedente. Pacheco Pereira podia explicar-lhes, pois teve um ilustre avoengo do século XVIII na fundação da Companhia. Resta Marcelo, o timorato, que já só pensa numa recandidatura albanesa que não hostilize o PS. O país está perigoso.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia.)

* JURISTA E MEMBRO DO PARTIDO ALIANÇA