Portugal em transe

O triunfo do fanático e do zombie

O triunfo do fanático e do zombie

Rebocados por uma "situação" em que a oposição oscila entre a inexistência e o colaboracionismo descarado - Rui Rio possui o raro condão de acumular ambos -, é natural que o desembarque da pirralha Greta Thunberg num cais de Alcântara, em Lisboa, tivesse provocado epifanias ridículas nas nossas pobres "elites".

Uma delegação de deputados foi esperar a nova D. Sebastião do clima. E o presidente da Câmara, o "herdeiro" desejado por Costa, saudou-a num inglês miserável que deve ter deixado a sobredotada menina a pensar onde é que afinal teria atracado.

Greta já estava em águas nacionais há uns dias, antes deste momento de glória mundial, deslocando-se numa embarcação de luxo de um príncipe qualquer, onde enjoou abundantemente até Lisboa. O Parlamento, que a queria receber jubilatoriamente, teve de se contentar com os horários da vedeta e fazer deslocar meia dúzia de gatos-pingados até ao cais. No hemiciclo, apenas o Chega teve a coragem de votar contra este circo.

O presidente da República desculpou-se por não ter ido pegar na criança ao colo por causa do "aproveitamento político", sem se perceber por parte de quem. Depois, Greta seguiu de comboio entre Santa Apolónia e Madrid, acompanhada de um cortejo de jornalistas enfiados numa carruagem, com direito a directos comovidos e abjectos nos telejornais.

Estiveram muito bem uns para os outros. Já em Madrid, a menina acometeu numa manifestação contra as chamadas "alterações climáticas", aproveitando a série de "greves" à sexta-feira que, um pouco por todo o lado, levam meninos e meninas a faltar às aulas, sem mais, vagabundando nas ruas com uns cartazes de papelão. No último evento folclórico por cá, não chegavam a cem.

A família Thunberg, da qual brotou esta Greta encantadora, ainda não está devidamente estudada. Para já, sabe-se que os papás andam a preparar o segundo rebento para o "combate feminista", para fazer jus ao nome próprio da menina: Beata. Se exibem uma beata para a meteorologia, porque é que a propriamente dita não pode juntar-se à luta contra a opressiva "pegada masculina"?

Alain Finkielkraut "viu" esta família Thunberg, com anos de antecedência, no livro "A derrota do pensamento", de 1987. Greta sublima uma "sociedade tornada por fim adolescente", onde quarentões como Medina, os deputados e os jornalistas, quais "teenagers prolongados", correm "desesperadamente atrás da adolescência" em que o ridículo triunfa sobre o pensamento. "E a vida com pensamento cede suavemente lugar ao frente-a-frente terrível e irrisório do fanático e do zombie".

JURISTA

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