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Opinião

O verdadeiro poucochinho

O verdadeiro poucochinho

O país político foi surpreendido por uma manobra táctica de diversão perpetrada por António Costa.

Primeiro, simulou uma reunião de emergência do Executivo, em S. Bento, à qual chamou a sua adjunta no partido e um fotógrafo. O assunto metia a Educação mas, apesar de lá estar sentado, o barbudo da antiga 5 de Outubro jamais se fez ouvir. Depois, comunicou-se em directo com o país, cerca de três horas antes de que aquilo que pretextava a comunicação tivesse sido de conhecimento público e partidário. Rematou o exercício com uma ameaça de demissão, a termo certo, coisa nunca vista com Guterres ou Sócrates.

O que disse não tem rigorosamente importância alguma. Já as causas, sim. A caminhar para resultado mais "poucochinho" que o de Seguro nas europeias de 2014, Costa, aliado ao dr. Centeno que não quer ficar numa eventual reencarnação governativa mais difícil, inventou uma crise circunstancial. O Governo está esgotado e, aparentemente, as papeletas assinadas com o PC e o radicalismo também. Sem eléctrico para se atirar fora dele como o tribuno Afonso Costa, este Costa ameaçou atirar-se fora de um poder cozinhado que quer, afinal, conservar a todo o custo quando há eleições gerais marcadas para Outubro.

Daqui em diante o texto é constituído por excertos conjugados do livro "Quinta-Feira e Outros Dias - 2", de Cavaco Silva, com escassos meses de edição, porque, para perceber estas 72 horas de "poucochismo", convém ler a "crónica" do seu anúncio. Reunião Passos-Costa em Outubro de 2015: Passos relatou a Cavaco que apenas houve um momento de descontracção "quando falaram das eleições presidenciais, em que António Costa dissera que tinham candidatos trocados". Costa para Cavaco, na mesma altura: "Compete-me salvar o PS". Cavaco para si mesmo: "ser PM era uma condição necessária para se salvar a si próprio como líder do PS". Mais. "Garantira-me que tinha assegurada uma alternativa de Governo estável, duradoura e consistente", e que "se não tivesse a convicção de que o apoio das forças políticas ao Governo do PS era para a legislatura, não se teria metido nessa aventura". Meteu-se e agora ameaça demitir-se dela? Centeno, o peão fundamental desta jogada: "o ministro das Finanças Mário Centeno enfiara de tal modo o chapéu de político que isso lhe toldara o seu acervo de conhecimentos de macroeconomia". Em suma, "creio que (Costa) percebera com Passos Coelho que, em política, uma excessiva preocupação em falar verdade não era um caminho para o sucesso". Poucochinho.

*JURISTA E MEMBRO DO PARTIDO ALIANÇA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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