Opinião

Os Zés das Medalhas

Depois de uma intervenção televisiva de José Miguel Júdice, sempre inteligente e para além da chamada espuma dos dias, o regime como que caiu em si e, em peso, em cima do senhor comendador Berardo.

Júdice, titular de uma venera da mesma Ordem da do banqueiro filantropo, mas de grau inferior, ofereceu-se para a devolver se Berardo mantivesse a dele. Outros titulares da mesma Ordem vieram a seguir dizer mais ou menos a mesma coisa. O presidente, e grão-mestre das ordens todas, sugeriu que não era mal pensado. E o Conselho das Ordens, a que preside a veneranda Ferreira Leite, instaurou um processo disciplinar ao comendador. Berardo veio depois dizer que, se quiserem, podem ficar com as veneras todas. Na base destes floreados esteve o seu depoimento na comissão parlamentar que investiga as infelicidades da Caixa Geral de Depósitos. Na verdade, Berardo foi sobranceiro e gozou manifestamente com aquilo tudo. Todavia, não convém tomar a árvore pela floresta. Mais importante do que tirar penduricalhos a este ou aquele, ou rasgar os respectivos diplomas, é o país (e a justiça, se for o caso) saber o que foi a gestão do banco público num período bem determinado. Berardo não é causa, é um efeito, e os deputados devem perseguir a causa e não esconderem-se sob o manto diáfano das veneras ou do apressado destino a dar agora à colecção de arte, depois das leviandades do Estado. Porque ficará sempre a suspeita que o regime se está a defender do que Berardo hipoteticamente sabe dos seus sátrapas. Aliás, o sorriso de orelha a orelha não quis significar outra coisa. Os contribuintes com certeza também riram com ele para não chorar. Até porque a questão honorífica dilui-se imediatamente no seu próprio elefantismo. Contas feitas, o regime de Abril outorgou, até ontem em Belgais, 9478 veneras, o que dá uma média de mais de duzentas por ano. Esta vulgarização das distinções retira-lhes grande parte da sua dignidade e do seu significado. Nos finais dos anos oitenta, a televisão passou uma telenovela na qual uma das personagens ostentava o apelido de Zé das Medalhas. O Zé fez fortuna à custa de uma falácia, de um "Roque Santeiro" que nunca existiu. E acabou afogado nas suas medalhas. O regime que recebeu Berardo em São Bento é uma metáfora política disto. A diferença é que Berardo ainda pode ficar de fora a ver alguns Zés das Medalhas a afogar-se. Seria um sinal que a comissão parlamentar sobre os negócios da Caixa, pelo menos, pôde chamar as coisas pelo nome delas.

Jurista