Portugal em transe

Oscar Otelo

Os mais timoratos escusam de se assustar com o título. Não se trata de nenhum panegírico. É apenas uma opinião e alguns factos. Quando cheguei ao Regimento de Lanceiros de Lisboa, à Ajuda, no Outono de 1986, a principal ocupação dos Esquadrões de Polícia Militar era a escolta a Otelo Saraiva de Carvalho.

Detido em Caxias - ironias do destino -, o RRL assegurava a escolta do major, na reserva, entre a prisão e o Tribunal de Monsanto. Todos os dias lá ia o pequeno Volkswagen do Regimento - para o major e para um acompanhante da mesma ou de patente superior - e uns quantos Land Rover PM. Cheguei a seguir num, uma vez, por curiosidade, mas o dito cujo avariou-se à entrada de Monsanto. E ali fiquei, melancolicamente, à espera que me fossem buscar de volta ao quartel. Ou seja, não cheguei a ver "Oscar". Acho, aliás, que nunca o vi pessoalmente. O referido major apareceu na minha vida, e na vida de todos daquela época, quando ainda era capitão. Todos esses capitães do pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974 tinham pouco mais de 30 anos. Otelo esteve para esse acto como o tenente-coronel Ramalho Eanes viria a estar para o de 25 de Novembro de 1975. Isto é, a partir de um aquartelamento na Pontinha, Saraiva de Carvalho delineou e acompanhou o plano de operações daquele pronunciamento com o sucesso que se conhece. O outro elemento essencial foi o responsável pelas transmissões, Garcia dos Santos.

No dia, dias e meses seguintes tudo mudou numa direcção imprevista. Otelo também. Dirigiu uma autêntica milícia político-militar, chamada COPCON, que perseguiu, prendeu e emitiu mandados de captura em branco em nome de uma "ética revolucionária" para-fascista. Fez parte de um célebre "triunvirato" (os outros eram o PR Costa Gomes e o PM Vasco Gonçalves), escolhido numa fogosa "assembleia do MFA", que mandava no país. Cessado o PREC em Novembro de 1975, Eanes fez questão de ir pessoalmente deter o camarada Oscar. Passou à situação de reserva em 1979. Continuaria na política através de uma coisa intitulada "grupos de dinamização da unidade popular" a que pertenceram alguns governantes do PS do século XXI, alguns em funções. Acabou candidato a PR, em 1976, e em 1980, em ambos os casos derrotado por Eanes. Fundaria, nos anos 80, uma organização terrorista, intitulada "FP-25", que lhe valeu o julgamento aludido, a condenação e os posteriores indulto e amnistia concedidos pelo regime. Disse uma vez que viu passar o cavalo do poder e que não o montou. Ainda bem.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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