Paulo Rangel

O regime é um lugar estranho. Senão vejamos. Em 2014, o PS inventou uma modalidade de escolha do chefe que passava por alargar a "simpatizantes" o universo eleitoral interno. A pergunta a que os beneméritos tinham de responder não era a de quem dava melhor secretário-geral da coisa. Não. O dilema era entre quem seria o melhor candidato a primeiro-ministro. Seguro percebeu a mensagem. Mesmo sendo o secretário-geral em funções, desapareceu para nunca mais ser visto no partido. Há sete anos que Costa é, pois, indiscutível para a seita. E lá vai outra vez, em Janeiro, avaliar o que o país pensa dele. O PSD não adoptou este "sistema". O seu modo de vida era o congresso. O PS apenas conheceu um congresso menos previsível, o de 1981, no Coliseu de Lisboa. Os do PPD/PSD constituíram sempre momentos melodramáticos de entradas, saídas, choros, gritos e apoteoses televisivas. Aquilo a que o português comum designaria por "fitas". A partir de certa altura, porém, o congresso deixou de ser electivo e perdeu a graça. Os últimos líderes, desde Marques Mendes, passaram a ser escolhidos pelos militantes antes do congresso. A "novidade", no próximo sábado, é que os militantes do PSD vão decidir quem é o candidato da não Esquerda a primeiro-ministro. Ou seja, o candidato a substituir António Costa em São Bento. É claro que existe aquela coisa desagradável das "listas" de deputados. Algo que mobiliza o que de pior, e de mais abjecto, define a militância partidária: lugares. Todavia, Rui Rio chega a sábado com um défice inaceitável como líder da Oposição. Ainda agora permanece naquele absurdo tropismo de ser "agradável" a um PS que não lhe liga nenhuma. Opõe-se-lhe Paulo Rangel que tem exibido o cuidado de falar simultaneamente aos militantes e ao país. Não tem a ambição de ser perfeito, como Rio, que concebe a política como o primado da primeira pessoa. A dele. Não é uma questão de seriedade ou de dignidade. Ambos são sérios e dignos. Sucede que os quatro anos de Rui Rio não conseguiram que crescesse para um país que não domina, nem conhece, no seu individualismo doentio. Rangel disponibiliza-nos, pelo contrário, algum "mundo", atenção, curiosidade, densidade democrática. Sobretudo, intransigência e congregação no fundamental, o único caminho da autoridade política. E o fundamental, agora, é sabermos o PS de um lado, ao lado do PC e do Bloco, e a liderança da não Esquerda partidária, a do PSD, do outro e na frente. Para o país poder optar tranquilo e esclarecido em Janeiro.

Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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