Opinião

Ponto final, parágrafo

Ponto final, parágrafo

O PSD é o partido português com uma ecologia mutante impressionável. Em dada altura, dizia-se até ser o "partido mais português de Portugal". De facto, se considerarmos a extraordinária diversidade das suas "elites" e dos seus militantes, isso fica mais claro.

Chegou a ter, parece, 120 mil militantes. Conseguiu, pelo menos em duas fases da sua história, estar simultaneamente no Governo e na oposição. Os mais antigos com certeza estão recordados. Em 1983, enquanto Balsemão presidia ao Governo de gestão da derradeira Aliança Democrática, o partido reunia-se no Algarve para eleger uma "troika" conciliatória a pensar nas eleições de Abril desse ano. O venerando Nuno Brederode dos Santos presidia, ladeado por Nascimento Rodrigues e pelo candidato a primeiro-ministro, Mota Pinto. Era a época do "partido locomotiva" que acabou rebocado pelo PS de Mário Soares no Bloco Central anticrise. Mas havia outra oposição interna, protagonizada por Cavaco e Eurico de Melo, tendo como "peões de brega" uns jovens turcos que se reuniam debaixo de uma coisa chamada "Nova Esperança". Ou seja, enquanto existia o Bloco Central no Governo, com metade do PSD lá dentro, metade dessa metade, e alguns dos que ficaram de fora, preparava a queda de Mota Pinto. A sublimação ocorreu em Maio de 1985, na Figueira da Foz, quando Cavaco passou a dominar a agremiação por dez anos. O mais ansioso dos "jovens turcos", Marcelo, intuiu imediatamente que vinha para ficar. Todavia, ainda encontramos um PSD mais remoto, o de 1978 e de 1979, pré-AD, quando quase metade do grupo parlamentar não dizia que "não" ao PS. E Sá Carneiro queria claramente que dissesse. É a separação mais contundente entre as chamadas "opções inadiáveis" e a linha da Aliança Democrática de Sá Carneiro. Dos primeiros, muitos acabaram em deputados do PS e em membros dos seus sucessivos governos. Rui Rio presumivelmente conhece esta história. De tanto usar o termo "primeiro-ministro", convenceu mais de metade dos agora 46 mil militantes que era o melhor candidato da não esquerda para defrontar António Costa. Pela segunda vez em dois anos, convém lembrar. Rio constitui um híbrido da história que contei. As pessoas não votam para eleger deputados, salvo nos partidos "fashion" que floresceram, também, por causa destes quatro anos ambíguos de Rio. Votam por um Governo novo. Ou para manter o que está por descrédito alternativo. Rio, que anda nisto desde pequenito, não ignora certamente a sua imensa responsabilidade em Janeiro. Ponto final, parágrafo.

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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