Opinião

Reentradas

Existe um cânone estabelecido pela Comunicação Social, particularmente pelas televisões, que manda fazer "reentradas" da política a dias e fins de semana certos. Isto como se a política, ou aquilo que a tomou de assalto e já não a larga, não estivesse presente no quotidiano dos cidadãos, desde o multibanco para fazer "pagamentos ao Estado" até à derradeira autorização camarária para plantar um manjerico no sítio previamente determinado precisamente pela política. Mas, dizia eu, as "reentradas" são momentos épicos que, na sua eloquente irrelevância, dizem muito do que são actualmente os partidos. A pouco mais de um mês de eleições legislativas, o país vai ser incomodado diariamente com qualquer mover de olhos vindo essencialmente, quando não exclusivamente, dos chefes partidários que mandam no regime e que o regime adoptou. Apesar de haver mais três ou quatro novas formações a participar nas festividades, o regime, através das televisões, já fez saber que só são admitidos à "Visita da Cornélia" os do costume, mais um: Costa, Rio, Cristas, Catarina, Jerónimo e o sr. Silva, uma recente sumidade teológica promovida a político. O "modelo" é o mesmo de há 45 anos. Comícios, bandeiras, bebedeiras, comezainas, música, visitas "sérias" a fábricas com um protector na cabeça, selfies, muitos pulos e uma catrefada de "debates televisivos" pré-campanha propriamente dita entre aquelas seis tristes almas. Deve ser seguramente a pior campanha para eleições legislativas de que haverá memória tão cedo. A genérica mediocridade das "narrativas" de todos, não ajuda. Só o bocadinho a que tivemos direito neste primeiro fim de semana, foi esclarecedor. Não existem projectos de fundo. E quando assim acontece, embora isso deva ser conversa só para depois de Outubro, é como escreveu José Miguel Júdice no "seu" Sá Carneiro: "os partidos não são fins em si mesmo, são apenas instrumentos que ao se afastarem da missão que lhes compete deixam de fazer qualquer sentido". Por ora, talvez conviesse apenas meditar no que o ensaísta Gore Vidal elaborou acerca do caos, por acaso também em Lisboa, em Maio de 1997. "Pelo maior tempo possível, deixemos o pluralismo e a diversidade ser o nosso objectivo. Dizia-se de um "speaker" da Casa dos Representantes norte-americana, no século XIX, que era tão reaccionário que, se Deus o tivesse consultado sobre a Criação, ele teria votado pelo caos. Dadas as alternativas, pelo menos por agora, também eu".

*Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia