portugal em transe

Rio ou a falta de sentido

Rio ou a falta de sentido

Estive a fazer as contas. Em vinte anos que levamos deste século lastimável, o PS governou treze, e a Direita sete.

O PS teve cinco chefes, e o PSD sete. Dos cinco socialistas, três foram primeiros-ministros. E dos sete do PSD, outros tantos três. Mas apenas um, Passos Coelho, cumpriu uma legislatura inteira, em maioria e em coligação. Sócrates garantiu ao PS uma maioria monopartidária, a única da sua história. De resto, os socialistas sempre governaram em minoria, com apoios aleatórios, que Costa transformou a partir de 2015 numa maioria parlamentar de Esquerda, a qual, nos momentos decisivos para a manutenção do Governo em funções, não lhe falha. A menos que algum imprevisto tome conta disto tudo, Costa quase de certeza tomará uma terceira vez posse do cargo. Falou-se da Europa. Todavia não se vislumbram "vagas" uma vez que Macron quer que o chocho belga continue. Por outro lado, o "plano" milionário de "recuperação e resiliência" tem de ser exaurido até 2026, já na próxima legislatura. Cavaco aguentou dez anos para, com os primeiros "fundos", poder praticar o "D" do "desenvolvimento" que faltava ao regime. Entretanto, e ao contrário do que aconteceu entre 2000 e 2010, presentemente o PSD não consegue exibir um líder da oposição. O líder da oposição, isto é, uma figura com autoridade política para disputar, em coligação pré-eleitoral, a maioria informal da Esquerda parlamentar e o lugar de Costa. Rui Rio é uma gargalhada política nacional, como o próprio fez questão de frisar numa entrevista improvável a um semanário. Para um político que se preze, o partido é "uma máquina para a conquista do poder, um instrumento de pedagogia política, uma via para integração de exigências e apoios, uma estrutura de resistência à unidimensionalização e ao unanimismo que antecipam projectos autoritários" ou a "canibalização" do Estado. Ou seja, "os partidos não são fins em si mesmo, são apenas instrumentos que, ao se afastarem da missão que lhes compete, deixam de fazer qualquer sentido". As citações são do livro "O meu Sá Carneiro - reflexões sobre o seu pensamento político", de José Miguel Júdice (D. Quixote, 2010). São longas porque, dez anos depois, o que Júdice escreve encaixa dramaticamente na actual oposição à situação. A cada dia que passa, Rio, convergente com Costa na "mentalidade" autoritarista - porém, sem a autoridade e o poder deste -, faz perder sentido político ao PSD. Quem quiser que pense nisso.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Jurista

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