Opinião

Sá Carneiro e o futuro do PSD - 2

Sá Carneiro e o futuro do PSD - 2

Estive a semana passada numa acção de campanha de Pedro Santana Lopes para as eleições internas daqui a um mês. Com a anestesia natalícia por perto, só nos primeiros dias de Janeiro a disputa pela liderança do maior partido com representação parlamentar começará a chegar ao país. Gostei de ver e ouvir de perto Santana Lopes. Aprecio quem aprende não apenas com as experiências fáceis, mas, sobretudo, quem amadurece com as contrariedades, os erros e o trabalho político e executivo "no terreno". Em suma, quem tem uma biografia. Atacam-no muito por causa das infelicidades de 2004. Santana aceitou o poder na secretaria pelos meses que os seus e Sampaio consentiram, esquecendo-se propositadamente tratar-se de um dos homens mais intuitivos e combativos do regime democrático. E em quem Sá Carneiro e Cavaco Silva muito cedo confiaram. O primeiro que o teve, ainda jovem, como seu assessor jurídico no Governo da AD. O segundo, de quem foi secretário de Estado Adjunto da PCM, primeiro, que o convidou para encabeçar a lista do PSD às primeiras eleições para o Parlamento Europeu, depois, e para seu secretário de Estado da Cultura, finalmente. Aceitou com prazer e sentido das responsabilidades os desafios autárquicos que lhe propuseram na Figueira da Foz e em Lisboa. Não hesitou em ser líder parlamentar do PSD, num momento de grande deslaçamento partidário, já depois de ter chefiado o Governo da República. Desempenhou competentemente o cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com executivos nacionais de distintas orientações políticas. Foi sempre mais leal com os que colaboraram consigo do que pôde, ou pode, esperar idêntico comportamento inverso. Numa entrevista lamentável, um dos eternos proto-candidatos a presidir ao PSD e vedeta mediática intermitente, Nuno Morais Sarmento, seu ex-ministro da Presidência, afirmou preferir votar em António Costa caso o candidato de quem é mandatário nacional, Rui Rio, não vença as eleições internas em Janeiro. Não dei por um murmúrio de Rio, ou das eminências da sua "comissão de honra", acerca disto. Sarmento, desautorizando-se como mandatário, desautorizou o seu candidato já que manifestamente não confia nele para nada. Nem para a disputa interna, nem para a disputa nacional com Costa que Sarmento diz estar muito bem onde está. Com Sá Carneiro, o PSD sobreviveu à perda de metade, ou mais, do seu grupo parlamentar em plenas funções. Porque é que agora não há-de sobreviver a uma pequena conspiração de tartufos?

JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia