Opinião

Trump no meio de nós

Trump veio à Europa. Antes, passou pelo Médio Oriente, onde jurou, como praticamente todos os seus mais recentes antecessores, pela respectiva "paz", uma espécie de paz de cemitérios sobre cemitérios. Perpetrou um negócio milionário de armamento com a Arábia Saudita antes de chegar a Israel, onde posou para a fotografia junto ao Muro das Lamentações. O Papa, no Vaticano, também apelou à consabida paz, oferecendo ao presidente dos EUA a cópia de uma encíclica na esperança de que alguém, na Casa Branca, a consiga decifrar. Depois, Trump rumou a Bruxelas para uma inauguração imobiliária, a nova sede da NATO, a coisa que certamente mais falta estava a fazer à organização. O "rei do imobiliário" norte-americano não se comoveu com o exercício e, diante da rapaziada do costume, sobrepôs a intendência aos "princípios": "vocês devem uma pipa de massa e vejam lá se começam a entrar com mais dinheiro rapidamente". Habituadas às amenidades das reuniões e das cimeiras dos últimos tempos - muito voltadas para outro tipo de mercearia, sobretudo a dos défices que deixaram de ser "virtuosos" -, as boas almas continentais, já assustadas com o Brexit, ficaram perplexas. Trump confirmava, para pior, o que os presidentes democratas e republicanos, antes dele, já tinham dado a entender por actos e omissões. A Europa não consta do pacote dos interesses geoestratégicos e económicos da Administração Trump. Nem a Europa, nem a maior parte da retórica da "globalização" que forneceu algum do "caldo" cultural e político paralisante do famoso "projecto europeu". O que ficou mais claro, a seguir, em Taormina no encontro dos chamados "G7". Trump não morre de amores pelos "acordos de Paris" sobre o ambiente. Pairou um imenso amargo de boca nesta matéria, e na da segurança mundial. Merkel, aliás, não perdeu tempo a constatar publicamente que não se pode contar com os EUA, da mesma forma que se deixou de contar com a Grã-Bretanha. Entretanto, o atomismo terrorista deve ter sorrido com estas perplexidades dos "aliados", depois de ter dado, em Manchester, mais um ar trágico da sua graça. Por cá, até parece que voltámos ao "orgulhosamente sós", agora na versão de comediantes democráticos em permanente digressão artística. De Madonna à presidência do Ecofin, o céu é, renovadamente, o único limite. Sucede que não é. Lá fora, não vai ser a brincar. Vai ser duro. E ninguém anda a preparar-nos para a dureza.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* JURISTA

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