Opinião

Um ano que continua

É difícil "balancear" um ano monotemático. Na prática, 2020 terminou antes de começar. O corte deu-se na alegadamente remota China. Mas só começou a sentir-se a sério, no antigo Ocidente, a partir de Fevereiro.

Desprovidos de "sentinelas de pandemias" ou de "veículos de alertas", para recorrer às expressões de Frédéric Keck, por um lado, e ciosos das suas sociedades abertas - e escancaradas pelo turismo de massas democráticas, incluindo as chinesas (só em 2019 foram cerca de 200 milhões em transumância ocidental) -, por outro, os países europeus acordaram na Primavera com uma nova pandemia paredes dentro. A China entretanto não deixou entrar quem quer que fosse e blindou, sempre que foi preciso, milhões de autóctones. Aqui, pela Europa, o mal já estava feito. Os confinamentos resultaram, enquanto tal, antecipando-se as mais das vezes os cidadãos aos governos e ao Estado, como em Portugal entre Março e Abril. O Verão reduziu brutalmente a eficácia dos confinamentos. Salvo poucas e honrosas excepções, a Europa, menos na letalidade pandémica oficiosa, está pior a quatro dias do final do ano do que estava há nove meses. A União Europeia quis disfarçar politicamente este descalabro fazendo das primeiras vacinações um espectáculo mediático. A Inglaterra, finalmente de saída, exibiu uma nonagenária. A França, uma senhora com 78 anos. A Espanha "progressista", outra senhora de 96. Na Alemanha, a primeira vacinada tinha 101 anos. Etc. Só em Itália, onde os profissionais de saúde foram muito castigados pela pandemia, a primeira vacina destinou-se a uma enfermeira de 30 anos. E aqui? Bem, aqui seguiu-se a regra circense do jogo. Não faltaram as escoltas policiais aos transportes das vacinas, os directos nas televisões até locais de armazenamento supostamente "confidenciais", a ministra agarrada a um frasquinho com um olhar de Gloria Swanson em "O crepúsculo dos deuses" e a exibição dos peitorais do primeiro vacinado nacional, um director de serviços médicos do Hospital de São João do Porto com 65 anos. Espero que estas frioleiras patéticas não demovam os meus concidadãos do seu próprio sentido de responsabilidade social e individual. A pandemia está longe de estar controlada. O ano "viral" de 2020 não se encerra, por magia, na meia-noite de quinta-feira. Em compensação, houve, e haverá cada vez mais, como apontou admiravelmente a Rainha Isabel II, a bondade e a atenção dos estranhos ("the kindness of strangers"), o melhor de um ano que não prestou.

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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