Opinião

Um grande escritor português

Um grande escritor português

Não é fácil, em poucas linhas, resumir uma "relação" de mais de 40 anos com a obra de alguém. Sobretudo quando parte significativa dessa obra se manifestava semanalmente, por vezes mais que uma vez por semana em jornais e revistas.

E, pouco depois do início desse "convívio" intenso, quando o autor dessa obra, nos nossos crédulos 17 anos, entra por uma sala de aula dentro, um ano inteiro, para explicar a "identidade nacional" e, a seguir, as peripécias das primeiras duas décadas do século XIX português. O professor entretanto desapareceria para o Governo da República, o VI Constitucional, onde foi secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro e secretário de Estado da Cultura. Encerrado esse capítulo, voltámos a encontrar-nos na Católica, numa cadeira semestral do meu último ano do curso de Direito. Desta vez era a "história das relações internacionais", do final das revoluções europeias de 1848 até às origens da II Guerra.

Lá fora, a outra "obra", a que emergia dos jornais e revistas continuava, e acabou seleccionada e reunida em cinco livros: "O país das maravilhas", "Às avessas", "Retratos e auto-retratos", "Esta ditosa pátria" e "De mal a pior". Na realidade, esta parte da obra deste escritor português - no duplo sentido do domínio perfeitamente luminoso e rigoroso da língua e de autor de uma literatura específica (a história, o ensaio e a crónica) - só terminaria há escassas semanas, no jornal onde agora escrevia, o "Público". O professor, este escritor, era o doutor Vasco Pulido Valente que, há cerca de dez anos, num encontro de fim de jantar num restaurante de Lisboa, me impôs a declinação do professor em Vasco simplesmente. Foi talvez a pessoa que melhor me ajudou a pensar, e não necessariamente porque tivesse sido meu professor.

Nada do que tenho dele ficou por ler ou reler, reler e ler. Não conseguiria entender, ou tentar entender, desde quase sempre a sociedade em que vivo sem Vasco Pulido Valente, o historiador, o ensaísta e o cronista, tão aparentemente diverso mas afinal uno. Por todos, esse magnífico fresco sobre a I República intitulado "O poder e o povo", a melhor "introdução" histórica a muitas das desgraças que ainda agora somos e temos. Ou "Os devoristas", que precederam estas. "Em certo sentido, um livro de história, um bom livro de história, não passa de uma obra de ficção, tão privada e tão universal como um romance". Julgo que esta frase, de um prefácio na primeira pessoa a um livro de 1983, representa bem Vasco Pulido Valente, um grande escritor português.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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