Opinião

Um rumo

Numa conversa informal com o presidente Cavaco Silva, em que falámos um pouco sobre o seu livro "Uma experiência de social-democracia moderna", questionei a razão de um astrolábio figurar na capa.

O presidente explicou - mostrando-me a réplica do astrolábio Sacramento encontrado no galeão homónimo, naufragado no século XVII na costa brasileira - que a capa reflecte a ideia subjacente ao livro. Essa "ideia", tão aparentemente simples quanto difícil de entender nos dias que correm, é a de rumo. Portugal, de facto, conheceu um rumo claro e distinto entre 5 de Novembro de 1985 e 27 de Outubro de 1995, período durante o qual Cavaco Silva governou o país, primeiro sem maioria e, a partir do Verão de 1987, ancorado em duas maiorias absolutas parlamentares, sem necessidade de coligações pré ou pós eleitorais.

Como escreve em "Uma experiência...", o país, nesse período, passou "de 55,7% da média europeia do PIB per capita em 1985 para 68,3% em 1995, uma melhoria na convergência real que, então, só foi ultrapassada pela Irlanda e que não voltou a repetir-se". O autor revisita algumas das realizações materiais e imateriais mais emblemáticas daqueles três mandatos governativos, produto, e cito, da "ambição de preparar Portugal para o século XXI, de contribuir para transformá-lo num país moderno e progressivo, mais livre, mais justo e equilibrado, com voz na cena internacional, através de uma política reformista, coerente e credível". Dos três "D" do programa do MFA de 1974, o do "desenvolvimento" acabou por ser o que levou mais tempo a chegar.

A revisão constitucional de 1989, viabilizada politicamente por Cavaco e por Vítor Constâncio, na altura o secretário-geral do PS, "abriu" a economia e a sociedade. Se hoje, mesmo com a prevalência de muito "ideologismo" risível e de um PS complacente com o ranço radicalista mais obscurantista, temos uma democracia liberal, a Cavaco muito o devemos.

Alheio à política palavrosa e à tagarelice nula, o antigo primeiro-ministro, depois presidente, preferiu sempre a acção política consequente de que este livro constitui um relato fiel na primeira pessoa. Parafraseando-o, consolidou a democracia, modernizou o país, apostou no desenvolvimento económico e na justiça social. Transformou uma periferia de largo espectro costeiro e marítimo, ancorada na "jangada de pedra" ibérica, num país europeu e cosmopolita. Deu-nos, numa palavra, um rumo. Tudo o que agora mais precisamos e não temos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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*Jurista

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