Portugal em transe

Uma cimeira demasiado longe

Uma cimeira demasiado longe

O Porto, magnífica cidade à beira-rio e mar plantada, recebeu uma coisa chamada "cimeira social" da União Europeia. E recebeu porque Portugal preside rotativamente à dita União até ao fim de Junho.

Costa precisava deste espectáculo inócuo como de pão para boca. O socialista aqui do lado também, depois do vexame por que o PSOE passou em Madrid. Macron igualmente, para "relançar" a sua agenda nacional de "santo padroeiro" da Europa, vinda da "Carta aos europeus", da Primavera de 2019, e que entretanto murchou com as crises internas e a pandemia. A senhora Merkel ignorou famosamente o evento. E a Polónia e a Hungria obrigaram a mudar a parte das "conclusões", em que se aludia à "igualdade de género", para "promoção da igualdade para cada indivíduo". Isto tudo no contexto de uma realização mediática destinada ao aprimoramento da equidade e dos direitos sociais, entremeada com a presença remota do senhor Modi, da Índia, que mais valia ter estado calado. Tudo, porém, acabou nas patentes das vacinas e com o dr. Costa a almejar novas conquistas vigorosas, agora por mar. Num inglês inconfundível, o primeiro-ministro português abalançou-se aos oceanos e deu por encerrada a "questão social". Longe destas amenidades, para sul, a nossa "questão social" continua marcada pela odisseia de Odemira e dos imigrantes que trabalham nas novas "vinhas da ira". A covid destapou ironicamente a careca torpe das instituições e da "sociedade civil". Querem-nos cá para fazer o que os portugueses não fazem, ou não querem fazer, para citar o presidente da República, e depois assinam diplomas legais para os meter em contentores. Todavia, paradoxalmente, ou talvez não, estão inscritas milhares de criaturas locais no Fundo de Desemprego. Por outro lado, o chico-espertismo habitual já transformou num negócio a transumância daqueles trabalhadores imigrantes, aquilo que António Barreto designou como "o uso e abuso dos factores de produção, das condições climáticas e da força de trabalho imigrante e desprotegida". O episódio da requisição civil de um equipamento turístico-habitacional para alojar alguns destes trabalhadores pôs a nu a impostura em vigor, expondo o Estado e alguma sociedade portuguesa a ridículo, com jogos florais no terreno, e fora dele, dignos de uma tragicomédia de quarta categoria. Que pena os da "cimeira" não terem sido metidos num autocarro para uma visita de estudo a Odemira. Marcelo já prometeu uma presidência "afectuosa" no local, mal a pandemia o consinta. Quando forem, se forem, já vão tarde.

Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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