Opinião

Vacinem-se

No livro de Nicholas Christakis "A flecha de Apolo", de 2020, podemos ler que "a ignorância quanto aos benefícios das vacinas, ou a resistência a tomá-las, terá de ser vigorosamente combatida".

Em pleno século XX, também grande foi a desconfiança em relação à vacina contra a poliomielite. Todavia, o curso dessa vacinação revelou-se fundamental no ataque à doença. Não se trata apenas de uma questão técnica, de maior eficácia ou eficiência na redução do fenómeno pandémico.

Não uso o termo erradicação propositadamente. A capacidade multiplicadora do vírus, as "variantes", já estará razoavelmente estabelecida para admitirmos que a coisa veio para ficar entre nós. O vírus não quer saber dos nossos hábitos sociais para nada. Não pede propriamente licença para se instalar. E, muito menos, para sair.

Os ritmos da sociabilidade mudaram para sempre. Não vale a pena bater no ceguinho. Os planos mundiais que estão a decorrer não resultaram de qualquer invenção científica de última hora ou de uma sinistra conspiração mundial. Houve um processo de aculturação e de investigação científica que permitiu abordar o problema, no tempo e no espaço, como não poderia, por exemplo, ter sido abordado cem anos antes, ou menos. Independentemente dos interesses do negócio farmacêutico, esta crise de saúde pública, ainda sem termo à vista, estaria num patamar muito mais desagradável se não houvesse vacinação.

Mesmo o pequeno cortejo de adversidades resultantes das inoculações - experimentem ler a bula da "Aspirina" e nunca mais querem tomar sequer meia - não supera o benefício social que decorre delas. Por isso, considero insuportável o ruído estúpido, digno de seita, contra as vacinas. Um ruído cretino que acarreta uma espécie de racismo etário inadmissível.

Se só morrem "velhos", dizem eles, para quê vacinar adolescentes e crianças "saudáveis"? Estes brutos saberão alguma vez distinguir o que é saudável do que não é? De que trevas do pior individualismo brotam? A vacinação não deve ser obrigatória, mas terá de ser o mais generalizada possível para um recobro aceitável dos níveis básicos (família, amigos) ou institucionais (escolas, equipamentos públicos) de sociabilidade.

As liberdades implicam que ninguém pode ser incomodado por querer ser vacinado, já que quem recorre ao processo fá-lo em absoluta liberdade, ainda que insultado por o fazer. Não é ao contrário. Ninguém obriga os das seitas obscurantistas ao exercício, como lembrou o vice-almirante Gouveia e Melo quando contestado, cobardemente, por meia dúzia de chanfrados na via pública.

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Vacinem-se.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Jurista

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