Opinião

Vasco e o país das maravilhas

Vasco e o país das maravilhas

Havia uma altura em que se sabia quase de cor quem escrevia nos jornais sem ser jornalista. Ou melhor, quem eram os comentadores ou cronistas "certos".

Por exemplo, no meio literato temeu-se décadas a fio pelas quintas-feiras (ou quartas, não consigo agora precisar de cor) do "Diário de Notícias". Porquê? Porque João Gaspar Simões, o crítico literário praticamente único em ambiente de jornais, escrevia naquele dia. Que livro ia incensar? Que autor iria demolir? Que "novos" promoveria? Simões não era académico e pagou sempre essa "falha". Ainda agora, um capítulo injusto de Miguel Tamen no livro "O cânone", de 2020, o compara com Eduardo Prado Coelho para dar cabo dos dois. Mas a questão da escrita não jornalística em jornal, sobretudo depois das plataformas digitais, é a segregação da qualidade na quantidade. Há gente para todos os gostos e feitios, a qualquer hora do dia e da noite, com "agenda" ou sem "agenda". Alfabetizados, imbecis profundos ou simples, para usar a terminologia do grande polemista austríaco Karl Kraus. Até eu escrevo. Felizmente, e por cima destes barulhos todos, houve quem ficasse na grande história - que talvez um dia possa ser escrita - da crónica jornalística dos últimos 50 anos. Sou suspeito porque sempre o li, e quase desde quando comecei a "ler" a sério. Vasco Pulido Valente aparecerá inevitavelmente no seu pórtico. Fez ontem um ano que morreu. E muitas vezes penso no que ele teria escrito sobre esse ano que ainda não acabou. A pandemia, directa ou indirectamente, fez recrudescer a pequena burguesia de espírito portuguesa que Vasco sempre abominou. A "redacção única" amesendou-se de vez. A intolerância com as liberdades públicas tomou de assalto o quotidiano. O individualismo, que tantos confundem com liberdade privada, acentuou-se. E o Estado virou sobretudo facção. Se calhar, ele não o afirmaria, ou até infirmaria sem que nada de pessoal fosse nisso, mas "safa-se" Marcelo, recém-refrescado pelo voto popular. O que dá ao presidente tanta autoridade quanto responsabilidade. De resto, é o "país das maravilhas" do Vasco. Aquele onde prevalecem "as mais baixas emoções" e a "mais absoluta irracionalidade para legitimar as pequenas (e, por regra, imerecidas) posições que [a Esquerda] ocupa no Estado e adjacências". O país onde se esforçou "por manter a coragem de pensar no meio de gente hostil e programaticamente surda" e no qual chegou "ao fim sem ódio". "O que, tudo somado, não é mau".

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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