Opinião

Vasco Pulido Valente, um português contemporâneo

Vasco Pulido Valente, um português contemporâneo

João Céu e Silva, jornalista do "Diário de Notícias", formado em História, acaba de publicar em livro o resultado de mais de quarenta sessões de conversas com Vasco Pulido Valente (VPV).

"Uma longa viagem com Vasco Pulido Valente" (Contraponto, 2021), que se lê de um fôlego, devolve ao leitor a voz, inconfundível e sem epígonos, desaparecida fisicamente há um ano. "Crítico e relativista" em relação a Portugal - como se definiu numa outra conversa com Rui Ramos, para a RTP, em 2007 -, VPV emerge deste livro fundamentalmente como o mais persistente e duradouro analista dos, vamos lá, últimos duzentos e tal anos disto. Mesmo na peripécia ou no episódio, é a mesma vontade de "tentar perceber" que subsiste. No meu caso particular, de seu antigo aluno, voltei a surpreender o homem que preparava cuidadosamente o que nos queria transmitir sobre Portugal no século XIX e a "identidade nacional". Quanto ao século XX, as múltiplas páginas sobre Salazar (Salazar, a Igreja e o Exército) pareceram-me o grande "miolo" desta obra. VPV ocupou-se pouco de Salazar e, por isso, talvez tivesse sentido necessidade de o abordar mais duradouramente na economia desta obra. As duas grandes "interrupções", confessadas a Céu e Silva, foram o desaparecimento abrupto de Sá Carneiro - com quem colaborou intensamente nos dois últimos anos de vida do fundador do PPD - e a troca de uma carreira académica, cá ou em Oxford, pela "vida" nos jornais, nas revistas e, vagamente, nas televisões e na rádio. VPV chega a ser ineditamente duro com Sá Carneiro - pela sua "leviandade" arriscada e pelo "complexo católico" da relação com Snu -, recusando terminantemente que tivesse sido vítima de um atentado. Sá Carneiro, contudo, "tinha um bom temperamento para primeiro-ministro". Soares serviu-lhe para trabalhar com ele "contra o comunismo". E Eanes? "Eu era amigo dele, mesmo amigo dele, e vi aquilo (do PRD) com tristeza e desgosto no dia-a-dia." Com Cavaco nunca criou "empatia". Dá Costa como assente: "não há ninguém no PS nem no país que possa concorrer com Costa". Fernando Medina, por exemplo, "é uma tristeza de chorar". VPV diz a Céu e Silva que "deveria ter ficado na parte académica e ter escrito uma boa História de Portugal do século XIX e parte do século XX". Todavia, ter permanecido "na conversa" mais de 40 anos seguidos, como VPV apelida o jornalismo que fez, é, de uma certa forma, uma "história de Portugal". A "longa viagem" de Céu e Silva conta boa parte dessa "história". Os cinco livros de crónicas e ensaios, ou os outros de História propriamente dita, fazem o resto desta história. Nossa e dele.

*Jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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