Opinião

O poeta mais popular de Santo Tirso

O poeta mais popular de Santo Tirso

O dia-a-dia de um poeta pode ser bem menos glamoroso do que a generalidade dos leitores imagina. Acreditem, sei bem do que falo. Desde logo, no momento escolhido pela Musa. De súbito, a meio da mais inusitada obrigação quotidiana, acontece-me um quase-verso. Excelente, afianço à partida, uma extraordinária sequência de vocábulos. "As melhores palavras na melhor ordem", segreda-me Samuel Coleridge ao ouvido.

Discretamente, procuro uma caneta (no bolso direito da frente) e o bloco Moleskine (no bolso direito de trás) e apresso-me a garatujar o verso (?) que, átimos antes, algo ou alguém drapejou na minha mente. Hum!? Como era mesmo o dito? Qualquer coisa acerca do tempo ou do modo como se suspende, algo entre a duração de Bergson e a de Handke. Não me estou a conseguir recordar. Que pena. Parecia tão bom. Azar o meu. Não consegui ir a tempo.

Outras chega a ser pior! Uma hora inteira para mim e nem uma ideia que seja, dessas que Degas confessou a Mallarmé ter a cabeça dele cheia. Pelo menos, se aparecer, não me vai apanhar desprevenido. O que tenho a fazer é esperar. Cinco minutos, dez, meia hora até que, finalmente, a caneta começa a mover-se. Olha, desenhou um barquinho. E até que nem ficou mal. Devia ter escolhido belas-artes, não devia ter "ido para poesia".

Dois anos desta vida agitada para escrever 30 poemas, lidos por 300 leitores? O extraordinário é que sempre existiu poesia e sempre existirá. Que teimosia é essa, então, que leva os poetas a insistir, ainda que isso exija mais do que os doze trabalhos de Hércules, mais parecendo uma valência da cátedra do masoquismo?

Dinheiro não é certamente e a fama não chega assim. Quando os meus editores investiram na publicação da "Poesia Reunida" (Quetzal, 2011), reunindo os meus primeiros sete livros, e quando editaram o oitavo, "Você Está Aqui" (Quetzal, 2013), pude confirmar que mesmo para um poeta com 27 anos de edição e criticas favoráveis, os leitores de poesia - a "grande razão" - são ainda uma entidade distante. Pude verificar isso mesmo em sessões de autógrafos na Feira do Livro de Aveiro (onde não apareceu ninguém) e da Feira do Livro de Braga (onde apenas Gonçalo M. Tavares, presente para uma palestra, apercebendo-se de que a minha caneta se vangloriava de mandriar, teve a amabilidade de lhe exigir que não se acomodasse à acédia), tal como numa sessão em Foz Côa, cancelada por falta de público (onde, apesar de tudo, nada se perdeu, dado que terminámos o dia a bordo de um rabelo a comer amêndoas do Douro e a esvaziar Valle do Nídeo, tinto, 2009, 14% de vol.), ou, em Frigiliana, na Andaluzia, no ciclo "A cielo abierto", onde nuestros hermanos preferiram ficar a ver o Real Madrid perder 1-2 com o Atlético na final da Copa do Rei, a vir ouvir os meus versos ditos em castelhano por José Ángel Cilleruelo. Não consigo entender porquê.

Dirão que estou a exagerar. Que muitos leitores acorrem às palestras das "Correntes d"Escritas", "Literatura em Viagem", às tradicionais Feiras do Livro do Porto e de Lisboa e às "Quintas de Leitura". É possível. No meu caso, porém, não desisto da poesia porque me agrada ser o poeta mais popular de Santo Tirso. Certa vez, pelas piores razões, encontrava-me perdido, de carro, numa qualquer artéria daquela cidade, quando abrandei num qualquer semáforo (também ele perdido) perguntando a direcção do hospital a uma desconhecida (também ela perdida?) junto a uma passadeira: "Eu digo-lhe onde é o hospital, mas não é o poeta João Luís Barreto Guimarães? Bem-vindo a Santo Tirso!"

Ora, quais são as probabilidades disto acontecer? Como a única outra pessoa com quem contactei na cidade não me identificou (o médico da Avó Micas), sou forçado a concluir que apenas 50% dos locais me reconhecem, o que ainda assim faz de mim um poeta extremamente popular em Santo Tirso. Trata-se de uma responsabilidade extremamente elevada que me coloca, de pedra e cal, no pódio da popularidade local. Em primeiro lugar, os jesuítas da Casa Moura; em segundo, os limonetes; e logo, logo a seguir, os meus poemas. Tudo coisas de comer.