Opinião

Um estudo científico

Macedo pagará à copeira mais do que paga a uma enfermeira? Objectivo - Pretende o autor testar a hipótese de presentemente, em Portugal, já não compensar tirar um curso superior. Para tanto, socorre-se do valor/hora pago em Lisboa por um ofício não diferenciado, bem como da remuneração/hora auferida por uma classe profissional cuja arte exige um curso superior.

Material e métodos - Comparou-se o valor/hora pago a empregadas domésticas da região de Lisboa, com a remuneração/hora auferida por enfermeiros do SNS. A questão - "qual o valor/hora pago a uma empregada doméstica em Lisboa?" - foi colocada a 17 amigos do autor, residentes na capital. A partir das 10 respostas válidas obtidas foi calculado o valor/hora médio. Do mesmo modo, foi solicitada uma cópia do talão de vencimento a 9 enfermeiros do SNS, a partir dos quais foi calculada a remuneração/hora, utilizando a fórmula: RH=(vencimento base x 12 meses)/(52 semanas x n.° horas semanais).

Resultados - Os dados obtidos encontram-se reunidos nas tabelas 1 e 2.

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Tabela 1 - Profissão do inquirido e valor/hora pago.

1 - Jornalista - paga 7euro/h

2 - Escritor - 7,5euro

3 - Editor - 8euro

4 - Editor - 7euro

5 - Médico - 8euro

6 - Jornalista - 7euro

7 - Jornalista - 7euro

8 - Ex-assessor do Governo - 6,5euro

9 - Médica - 6euro

10 - Escritor - 9euro

Tabela 2 - Vencimento do enfermeiro e remuneração/hora auferida.

1 - 1.020,06euro/35h - aufere 6,7euro/h

2 - 1.162,87euro/40h - 6,7euro

3 - 1.162,87euro/40h - 6,7euro

4 - 1.369,03euro/40h - 7,8euro

5 - 1.162,87euro/40h - 6,7euro

6 - 1.201,48euro/40h - 6,9euro

7 - 1.201,48euro/40h - 6,9euro

8 - 1.201,48euro/40h - 6,9euro

9 - 1.162,87euro/40h - 6,7euro

A amostra revela que o valor/hora pago por um ofício não diferenciado (como é o digníssimo ofício de empregada doméstica) é, em Lisboa, em média - e muito bem! - de 7,3euro líquidos. Por seu turno, a remuneração/hora dos enfermeiros inquiridos oscila entre 6,7 e 7,8euro/hora, taxados em sede de IRS, em média, a 25%, dispondo os licenciados de cerca de 5 a 5,85euro líquidos/hora.

Discussão - A prática de enfermagem pressupõe uma diferenciação que é incompatível com este tipo de vencimentos. O autor espanta-se que o ministro da Saúde não tenha vergonha de só lhes pagar isto! Não está a ver, o autor, como é possível motivar alguém - que inclusive labora a horas nocturnas - recompensando-o com 1.020,21euro líquidos/mês, como é o caso do enfermeiro n.° 5.

Vamos dar-lhe um nome (não fictício): o enfermeiro Luís - que não acumula "na privada", andando portanto exausto exclusivamente "da pública" - gastará este mês 450euro com a prestação da casa, 250euro (prestação do carro), 150euro (gasolina), 60euro (gás e electricidade), 49euro (telefone, TV, Internet), 25euro (água), 38euro (condomínio) e 300euro (mercearia e drogaria). Os 301,79euro a mais brotarão do vencimento da esposa que também é enfermeira. Trata-se portanto de um casal rico, de classe alta. Quase banqueiros.

Ora, a legítima expectativa deste casal sem filhos - que teve mérito suficiente para escapar à mediania ao tirar um curso superior - é a de que o país que decidiram ajudar a construir lhes devolva uma qualidade de vida consentânea com a complexidade do trabalho que desempenham. Contudo - e à semelhança do que sucede com tantas outras profissões em Portugal - por mais brio, persistência e altruísmo que demonstrem, a mensagem que o Governo lhes passa é a de que não compensa licenciarem-se: é mais barato ficar em casa!

O SNS carece de centenas de enfermeiros. Os que resistem cumprem turnos a dobrar. As horas extraordinárias não são pagas e as folgas não são gozadas. Há bancos de horas com milhares de horas que nunca serão pagas nem gozadas, e trabalhar assim - de graça - é indigno porque em pouco se distingue de trabalho escravo.

Conclusões - O autor recomenda aos enfermeiros que fujam deste país ou, em alternativa, que tentem evoluir para trabalhadores domésticos. Isto enquanto o ministro não compreender que aumentar a remuneração/hora faz crescer a economia, ou enquanto permitir que se pague mais a uma copeira do que ele paga a uma enfermeira.

joaoluisguimaraes@mail.telepac.pt

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