O Jogo ao Vivo

Opinião

Ara és l"hora de un cop de rauxa

Ara és l"hora de un cop de rauxa

O que fazer para acabar com a guerra colonial, derrubar uma ditadura em últimas exibições e construir um mundo melhor eram temas generosos mas que não esgotavam a ordem de trabalhos das discussões arrebatadas que marcaram a minha adolescência. Havia assuntos mais ligeiros, mas não menos fraturantes, que proporcionaram épicos debates, à mesa do Piolho, como a eterna questão que divide os rapazes entre os adeptos de mamas grandes e os das mamas pequenas que cabem na nossa mão. Mas a agenda era grande. Chicago ou Blood, Sweat & Tears? Camilo ou Eça? Cartaxo ou Super Bock? Louras ou morenas? Londres ou Paris? Carne ou peixe?

E assim foi até percebermos que a dúvida se instala à medida que vamos adquirindo mais conhecimentos, nos resignamos a viver com mais interrogações do que certezas, e ficamos encantados ao descobrir que não há incompatibilidade (antes pelo contrário) entre amar "Lucretia McEvil" e "I"m a man", "A relíquia" e "Queda de um anjo", o vinho e a cerveja, Scarlett Johansson e Penelope Cruz, o Marais e o East End, rodovalho e picanha - e que tanto as mamas grandes como as pequenas podem ser uma fonte de inesgotáveis prazeres.

Vem este pedaço nostálgico de filosofia de mesa de café a propósito da defesa da compatibilidade da "seny" (prudência no juízo e ação) e a "rauxa" (arrebatamento), duas características do caráter dos catalães, que na quinta-feira celebram na rua o seu dia nacional (Diada), no que se espera seja o último passo no caminho soberanista, que entrará no ponto do não retorno se o sim for maioritário no referendo de 9 de novembro.

A acontecer, a independência da Catalunha será o início do fim do Império espanhol (que Madrid e o rei tiveram artes de fazer sobreviver à morte de Franco) e da vitória final da República esmagada na guerra civil de 36-39 pelos nacionalistas apoiados por Hitler, e que contaram com a cumplicidade criminosa de Stalin e a complacência cobarde das democracias ocidentais. O sim no referendo ferirá de morte uma monarquia obsoleta e anacrónica que só serve para manter à força o controlo de nações com língua, história e cultura próprias e que legitimamente ambicionam ser donas do seu destino, como o País Basco e a Galiza.

É inaceitável que Madrid teime na atitude centralista e autoritária de tentar impedir o referendo, que contrasta vivamente com a de Londres, que aceita o referendo escocês e reconhecerá o seu resultado, apesar de estarem em causa as pingues receitas da exploração do petróleo no Mar do Norte.

No ano em que foi coroado Filipe VI e se comemoram 300 anos sobre a queda de Barcelona às mãos de Filipe V - que encerrou as universidades, proibiu o catalão, transformou catedrais em quartéis e chacinou os patriotas catalães -, é chegada a hora da prudente "seny" dar lugar a um audacioso "cop de rauxa". Ara és l"hora! Todos os povos da Península Ibérica têm a ganhar com uma Catalunha livre e independente.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG